Uma febre chamada off-road
>por Decio
Pedroso
O velho Jeep embicou a frente para cima. O motor seis cilindros
urrou mais forte quando seu motorista aumentou a pressão
no acelerador.
Afundado no banco quase já sem nenhuma forração,
a estrada sumiu de minha visão e tudo que vi foi um pedaço
azul do céu margeado pelas copas de castanheiras e seringueiras
que se misturavam na floresta, ainda pouco tocada do então
Território de Rondônia.
Era outubro de 1984 e as águas ainda não tinham
começado a cair. Eu contava 16 anos na ocasião
e foi ali que algum mosquito me picou, pois nunca mais curei-me
da Febre do Off-Road.
Do lado direito, o chão ia ficando cada vez mais para
baixo, como se o Jeep estivesse decolando de uma pista de garimpeiros
de Alta Floresta. Mas era apenas mais uma das inúmeras
erosões que contornávamos. Conforme nos embrenhávamos
pela mata, as erosões iam se tornando cada vez mais freqüentes
e maiores na medida em que as chuvas lavavam a precária
estrada aberta pelos fazendeiros da região.
Eu segurava firme no 'PQP' - um dos recursos mais importantes
para os caronas dentro de um Jeep - tentando maior firmeza,
já que ia sentado no meio. Em vão. Quando chegamos
ao final da rampa, ela terminou abruptamente, forçando
a frente do Jeep contra suas cansadas molas até o fim
de curso, quando bateu no seu eixo dianteiro. Não fora
um pouso muito confortável.
Meu pai e o Mário iam conversando. Uma conversa estranha
para quem não está acostumado. Frases curtas ditas
bem alto para tentar suplantar os vários ruídos
do Jeep sofrendo naquela estrada dura. Truncado, o diálogo
era recheado de termos rurais e especificidades da região
que eu ainda não compreendia.
Entre os diversos comentários, um chamou-me especialmente
a atenção. "A estrada está bem melhor
esse ano, não?". "Nem diga! Estamos gastando
menos de cinco horas agora!". Cinco horas? Para percorrer
menos de 100 Km! Não era possível.
Por estar entre eles, tentava me firmar segurando no já
citado equipamento, tentando manter ao mesmo tempo, minhas pernas
longe do complexo de alavancas que compunham a transmissão
daquele valente. Também tinha que colocar minha cabeça
a salvo do cotovelo do Mário que, além das irregularidades
da estrada, vinha brigando com uma folga de mais de meia volta
no volante.
Além de nós três á frente da precária
viatura, vinham mais quatro peões e toda a sua e a nossa
tralha para três dias de mato. Parece incrível
lembrando agora.
Após 2 horas de viagem, acabávamos de cobrir metade
dos 100 km que separavam Vilhena da sede da Fazenda Ouro Verde,
de propriedade do Mário e vizinha à nossa. Mas
o pior ainda estava por vir.
A estrada era uma estreita abertura na selva, cuja tênue
camada de solo fértil havia sido levada pelas águas,
deixando exposta a areia da qual é composto o solo amazônico.
A região é toda marcada por topes e vales de pequenos
rios, que acabam transformando a viagem em um tobogã
alucinado, com estreitas e precárias pontes ao final
de cada descida.
Nas piores, era preciso sangue frio. O Jeep desabava pela descida.
Por um lado por que era preciso embalo para vencer a subida
que se seguia. Por outro, por não ter freios, de qualquer
forma.
Durante a descida, Mário ainda tinha que manter-nos sobre
o facão aberto pelos caminhões madeireiros e brigar
com o volante, completamente bobo em suas mãos. Ato contínuo,
não deixar que as rodas escorregassem dos dois troncos
paralelos que compunham as pontes sobre os rios que deveríamos
transpassar.
Era uma montanha russa sem trilhos.
Ao atravessar as derrubadas, a exposição da estrada
ao sol e o tráfego constante de veículos pesados
criava bolsões de areia que só com muito custo
conseguíamos vencer. Era preciso velocidade. Os pneus
militares originais do Jeep, totalmente inadequados para esse
tipo de piso, cavavam na menor das patinadas. Nessa hora o motor
seis cilindros dizia ao que veio.
Com uma roda enfiada na vala aberta pelas rodas dos caminhões
e a outra sobre o facão, o Jeep ia descontrolado, cuspindo
todo o tipo de gases e cheiro de gasolina, levantando uma poeira
indescritível. Sacolejava e pendia perigosamente ao cair
de um lado para outro do facão. Pé embaixo, pilotos
inexperientes invariavelmente acabavam encalhando nesses locais.
Eu sentia-me à bordo de uma coqueteleira. O cotovelo
do Mário voava a centímetros do meu rosto e a
toda hora tinha a impressão que capotaríamos.
Meu pai não queria demonstrar, mas também seguia
apreensivo. Ao olhar para ele, ele me reconfortava com a mão
em meu ombro, mas não dizia nada.
Ao chegar à Faz. Ouro Verde, desci daquele valente, ainda
descrente que ele tivesse nos trazido até aqui. Confesso
não ter sido essa uma das viagens mais confortáveis
que já fiz. Mas sem dúvida foi a mais contagiante.
Nas próximas edições, pretendo trazer outros
relatos do mundo off-road, crônicas e experiências
minhas e de vocês. Escrevam-me contando.
Abraços tracionados,
Decio Pedroso
dpedroso@zip.net
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