Procedimento para comprar peças para seu jipe
>por Decio
Pedroso
Em virtude do crescimento constante e progressivo da prática
do off-road em nosso país, e de constantemente estarmos
detectando que, salvo raras e honrosas exceções,
grande parte dos fornecedores de peças e serviços
não está acompanhando esse crescimento no mesmo
ritmo, com a seriedade e dinamismo desejados, esse colunista
teve a ousadia de preparar um roteiro que espero, muito auxiliará.
Assim, sempre que precisar de peças ou acessórios
para seu 4x4, siga as seguintes etapas:
1.Vá até a loja e peça o item desejado.
2. Ao ser informado que o item não está disponível
para entrega imediata, não esboce qualquer surpresa,
nem pergunte porque (isso garantirá a você o status
de cliente antigo da casa e há, com isso, maior possibilidade
de sucesso).
3. Informe todos os dados necessários para que seja encontrado
quando o referido item estiver disponível, como nome,
endereço, telefones (todos, incluindo da sogra, do boteco,
do pai, do avô, da Receita Federal, etc.), lugares que
costuma freqüentar, marca, modelo, cor, placa e número
do chassi de seu veículo (pode ser útil para localizá-lo
pelo Banco de Dados do Detran), hábitos alimentares,
etc.
4. Passados dois dias, volte à loja e pergunte se o referido
item já chegou. O vendedor assumirá um ar ofendido,
o mesmo que o maitre do Dinho's Place assume ao perguntar se
eles têm filé. Em seguida ele irá sumir
por alguns instantes, você ouvirá barulhos, peças
reviradas, gritos chamando um tal de 'Crides', etc. Permaneça
inabalável quando ele retornar dizendo que tinha duas
peças agorinha mesmo, mas devem ter vendido. Essas peças
andam muito procuradas ultimamente. Ele se compromete a anotar
seus dados para lhe avisar 'assim que a peça chegar'.
5. Não caia na tentação de dizer-lhe que
seus dados já foram anotados há dois dias atrás.
Forneça-os novamente, acrescentando detalhes como o nome
do seu cachorro e a sua cor preferida de cuecas.
6. Passados 3, não mais do que 5 dias, procure-os no
Pacaembú, pedindo o mesmo item. Nessa ocasião,
um dos filhos do dono irá atende-lo, cheio de sorrisos,
te tratando como se fossem grandes amigos. Você ficará
tentado até a convida-lo a jantar em sua casa um dia
desses. Você então ouvirá a explicação
que ele chegou a colocar pelo menos três peças
dessas no furgão. Mas na última hora, alguém,
provavelmente o 'Crides', tirou para colocar um santo-antônio
que um cliente havia pedido há 2 meses, mas que não
viera buscar até agora. Ao ouvir isso, seu ajudante,
que estava ali por acaso, para ajudar, pergunta: 'Esse santo-antônio
é o do Seu Rubens? Ele retirou na semana passada!'. Não
esboce qualquer reação. Nem pense em sugerir destinos
para o referido santo. É pecado.
7. Volte à loja após 2 dias, solicitando o desejado
item. Nessa hora, é possível que o próprio
'Crides' te atenda. Não se espante se ouvir: 'Não
é você que esteve aqui procurando essa peça?
Por que não deixou seus dados? Faça o seguinte:
ainda ontem peguei uns aí que estavam levando para o
Pacaembú e deixei na loja. Espere aí que eu já
volto'. Novamente os mesmos barulhos, gritos: 'O Alemão!
Você viu aquelas peças que deixei aqui? Assim não
dá!' Então ele volta. Mantenha-se impassível
quando ele vier com o mesmo bloco surrado de pedidos para anotar
seus dados. Não mexa nem as sobrancelhas se ele indagar
coisas como o sabor preferido de sua pasta de dentes. Responda,
agradeça e saia para esmurrar o primeiro transeunte que
divisar.
8. No dia seguinte, ligue e peça para falar com o 'Crides'.
Como ele foi almoçar, ele ligará assim que chegar,
pode ficar tranqüilo.
9. Passado mais um dia, ligue para qualquer um na referida loja
e pergunte sobre os itens solicitados em seu nome. A pessoa
então irá dizer que não tem nenhum pedido
em seu nome, mas que terá muito prazer em anota-lo para
você. Louco da vida, mesmo sabendo que não deve,
você dirá que já falou com 'não sei
quantas pessoas', que já fez o pedido 'não sei
quantas vezes' e que ninguém parece saber de nada. Aí
então o simpático senhor que o atende se apresentará
como seu João, proprietário, dizendo não
ser possível, pois ele é o dono. Se alguém
pediu alguma coisa, ele tinha que saber. Qual é mesmo
o seu nome?
10. Após sair de uma sessão intensiva de Ioga,
volte à bendita loja e peça pelo referido item.
Vendedor sai, barulho, gritos, volta, etc. Quando ele sacar
de alguma gaveta o maldito bloco de pedidos, pule em seu pescoço.
Suba no balcão, tome-lhe o bloco desgraçado das
mãos picando-o em pedaços. Fique azul de raiva
ao ver milhares de pedaços de papel voando a sua volta,
muitos deles com partes de seu nome neles. Salte do balcão
em direção a uma estante qualquer, pegue um item
a esmo, ameaçando atira-lo contra a vitrine. De repente
você pára. Sua respiração começa
a se normalizar. Seu batimento cardíaco diminui. Não
é que era isso que você estava procurando?
Com um sorriso besta na cara, passe pelo caixa, pague e saia
tranqüilamente pela rua. Procure não se incomodar
se outras pessoas repararem na sua camisa rasgada aberta no
peito, sua calça virada e a falta de um ou dois sapatos.
O importante é que você conseguiu comprar o que
precisava!
Pequenas variações nesse procedimento são
toleradas. Contudo, o autor não se responsabiliza pelo
seu êxito, nem mesmo se cumpri-lo à risca.
Boas compras.
Decio Pedroso
dpedroso@zip.net |
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