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Dezembro é aquela água
>por Decio Pedroso

Dezembro chovia. Sempre.

Mas as coisas continuavam a acontecer no Estado de Rondônia.

No tempo das águas, ninguém se aventurava sozinho pelas estradas de fazendas da região.

Assim, para ir da cidade para a fazenda, sempre procurávamos conciliar datas com o pessoal do Mário, nosso vizinho, para que ninguém ficasse na mão. As estradas estavam já muito ruins e todo cuidado era pouco. Tendo isso em vista, marcamos nossa saída para aquela madrugada bem cedo.

Em Vilhena, as noites são frescas e as madrugadas, frias. Aquela não era exceção. Bem agasalhados, revisamos rapidamente a tralha toda que havíamos arrumado no dia anterior e acrescentamos os últimos itens, como a garrafa de café, nossas carteiras e as armas, que naquela época eram indispensáveis nas incursões mata adentro.

Após inspecionar água e óleo e dar partida ao preguiçoso mas valente motor 6 cilindros, o velho Jeep, com sua decrépita capota de aço, chacoalhou rangendo molas pelas esburacadas ruas de terra da cidade. Ainda estava bem escuro quando chegamos ao armazém do nosso amigo Mário. Lá complementamos nossos mantimentos e atiramo-nos pela BR 364 em direção a Porto Velho em companhia do Jeep Verde do pessoal do Mário.

Quinze quilômetros á frente, saímos à esquerda em direção a Colorado d'Oeste e o asfalto acabou.

O sol já levantara o suficiente no horizonte para que pudéssemos rodar apenas com as lanternas dos Jeeps ligadas. Um estradão reto e largo se estendia à nossa frente.

Castigado pelas chuvas e pelo tráfego intenso de caminhões toreiros, sempre com excesso de peso, as costelas-de-vaca massacravam nossos corpos e viaturas. Os enormes buracos e poças de lama, cujo fundo sempre era um mistério, obrigavam-nos a dirigir ziguezagueando pela estrada, muitas vezes rodando centenas de metros pela contra-mão. Os poucos veículos que cruzavam conosco faziam o mesmo, fazendo-nos parecer que naquele Estado, o trânsito era regido por outras leis.

O Jeep do Mário ia à frente. Mas parou pouco depois do avião abandonado.

Esse avião estava há anos abandonado na beira da estrada. Contam que transportava drogas quando teve que fazer um pouso forçado. Ninguém nunca confirmou. Mas por via das dúvidas, ninguém nunca ousou se aproximar muito do aparelho.

O peão da fazenda do Mário e outro empregado desceram, circundaram o velho Jeep coçando a cabeça, desanimados:

- Travou. Deve ser rolamento. Vamos ter que voltar.

Inabalável com o diagnóstico, Valdir, administrador da nossa fazenda, vasculhou a caixa de ferramentas e desceu com uma simples chave de fenda. Sem falar uma palavra, deitou-se sob o Jeep verde, fuçou-lhe nas partes e apareceu dizendo, sorriso orgulhoso de lado:

- Pode tocar. Já falei que aquele mecânico que vocês levam só entende de automóvel. Ele deixou as lonas muitas juntas e elas travaram.

O peão do Mário era um mateiro. Mas ainda não se sentia muito à vontade com as coisas da cidade. Uma vez, voltando com ele de uma serraria perto da fazenda, onde havíamos ido encomendar umas tábuas para a casa que construíamos, ele, no meio da conversa, de repente falou:

- Já, já vamos ter companhia.

Mostrou-me os rastros de um jipe, indicando-me que seu pneu direito estava furado e murchando. Achando que ele estava brincando, desafiei-lhe dizendo como sabia que o jipe estava indo na mesma direção que nós, e como sabia que ele não havia passado antes.

- Está vendo aquele rastro ali? É o nosso quando estávamos indo. Veja como o rastro do jipe está por cima.

Quanto à direção, ele coçou a cabeça e confessou que não sabia porque, mas sabia que o jipe estava indo, e não voltando.

Não deu outra. Logo depois encontramos um jipe ainda mais rebentado que o nosso. Era de nosso outro vizinho, dono de uma laminadora em Vilhena.

Ele e seu Jeep eram famosos naquelas bandas. Andando sempre á gás, volta e meia parava com o bujão vazio ou por qualquer outro problema em sua castigadíssima mecânica.

Uma vez, vinha puxando uma pequena carreta com três empregados e sua tralha dentro quando esta se soltou do Jeep. No início, os empregados riram muito e esperaram seu tresloucado patrão voltar.

Passadas algumas horas, tiveram que ser resgatados por um caminhão toreiro uma vez que seu patrão não aparecia mesmo.

Depois de ajudarmos na troca do pneu (o jipe estava sem macaco), voltamos ao nosso e procurei o disfarçar o quanto pude a minha admiração. Era caçador de onça.

Assim que constatamos que o Jeep Verde podia voltar a rodar, colocamo-nos novamente á caminho e rodamos por mais uma meia-hora.

Paramos no Bar da Serra, conhecido pelo nome de "último Gole", pois na época era o último bar até a fazenda. Na volta, o seu nome já era ëPrimeiro Goleí. O céu já estava fechado, ameaçando chuva.

Descemos, tomamos uma cerveja com ovo cozido e colocamo-nos novamente a caminho. A chuva já começara a cair.

Tínhamos uma serra para descer, que sempre nos causava preocupação. A terra, agora molhada, não oferecia muita aderência e os precários freios de nossos Jeeps nunca mereciam nossa confiança. Assim, quem segurava os bichões mesmo eram os motores, em marcha baixa.

Descida a serra, logo entramos á direita pela estradinha estreita que nos conduziria á fazenda. Era ali que a coisa começaria a ficar preta.

Os jipes atolavam um após o outro em uma seqüência desanimadora para quem não estava ali por diversão, mas a trabalho. A água nos envolvia por todos os lados. Vinda de cima em forma de chuva, em nossos pés, vindas das poças que se formavam, e em nossas roupas, jogadas pelos pneus dos jipes que desesperadamente buscavam se desencalhar.

Sem os sofisticados recursos de que dispomos hoje, os pneus eram os candangos originais, pequenos e finos. Guincho era um luxo somente permitido aos tratores que auxiliavam os caminhões das madeireiras. Os únicos recursos com que contavam nossos jipinhos eram a força bruta de sua tripulação.

Tínhamos também um enorme T-for para 2 ton, mas que era tão grande e difícil de usar que só recorríamos a ele quando não havia mais nada para fazer.

Aproveitando uma estiada rápida, fizemos uma parada na hora do almoço para um lanche á beira de um córrego, ou ëcorgãoí como eles o chamavam.

Com as energias assim repostas, voltamos a rodar. No início de uma derrubada, uma grande árvore atravessava a estrada, impedindo nosso avanço. Sugeri passarmos o cabo de aço e puxarmos com o Jeep. Valdir olhou para mim e sorriu. O diâmetro do tronco dava dois do meu tórax. Nem com um guincho aquele tronco seria removido.

Apelamos para a moto-serra, equipamento obrigatório em nossos Jeeps naquela época. Hoje infelizmente já não existem mais árvores em torno das estradas para caírem sobre elas.

O tronco foi cortado em seus dois extremos e só então o Jeep da frente pôde puxa-lo para o lado da estrada.

Um pouco mais à frente, ainda na mesma derrubada, os dois Jeeps atolaram e a chuva apertou. As pás e a força de todos nós eram insuficientes.

Em uma derrubada, sempre sobram algumas árvores em pé. Após a queimada, essas árvores morrem e resta-lhes apenas seus troncos queimados em pé, como tristes testemunhas da floresta que lá havia.

Estendemos o cabo do T-For até um desses troncos e pusemo-nos a operá-lo. A cada alavancada, o Jeep se deslocava um pouco para frente. O tronco, já seco, começou a estalar, ameaçando cair sobre nossas cabeças a cada instante.

Quando o Jeep Verde teve tração suficiente, puxou o nosso e pudemos deixar a derrubada e o ameaçador tronco para trás.

A tarde já caia quando atingimos metade do percurso. Rodamos até uma fazenda por ali, onde poderíamos dormir. Como não éramos esperados e nem esperávamos nós ter dormir no meio do caminho, a única opção para jantar ciscava despreocupadamente pelo terreiro.

O empregado da fazenda deixou-nos à vontade para matar uma galinha, mas nós é que teríamos que correr atrás do bicho...

Nós bem que tentamos. Mas cansados como estávamos, levamos um baile das galinhas e arfávamos pesadamente após alguns instantes de correrias.

O empregado do Mário, mais prático, sacou de seu Jeep um rifle 22 e com um balaço resolveu a questão. A galinha no fogão à lenha ficou uma delícia.

Esticamos nossas redes na casa da sede da fazenda, que estava vazia e dormimos a sono solto.

No dia seguinte, saímos com o sol, após uma caneca de um gostoso leite tirado na hora.

Encalhamos muito. Vencemos verdadeiros poços de lama e só chegamos à nossa fazenda lá pelas duas horas da tarde. Leváramos 32 horas para vencer os 90 Km que nos separavam de Vilhena.

Sentados na varanda, banho tomado, bem-humorados constatamos que a pé teríamos chegado antes.

Um bezerro mugiu no curral junto á casa.

Abraços 4x4,

Decio Pedroso
dpedroso@zip.net

 

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