Tragédia no Paraná: o que foi que deu errado?
>por Decio
Pedroso
Há duas semanas atrás, os off-roaders de todo
o Brasil ficaram chocados com a notícia de um trágico
acidente ocorrido no interior do Paraná durante um raid.
Um Engesa pilotado, provavelmente, por um menor de idade capotou
violentamente, consumindo-se em chamas logo em seguida. O menor
de idade faleceu carbonizado entre as ferragens e seu irmão
mais velho teve sérias queimaduras em 50% de seu corpo.
Li com muito interesse todo o material publicado sobre esse
acidente. Não por aquele interesse mórbido de
quem passa devagar por um acidente na estrada, ou engrossa o
aglomerado de gente no centro da cidade quando uma tragédia
acontece. Mas com o interesse de quem procura descobrir o que
foi que deu errado, tentando reter entre os dedos algum detalhe
que tenha passado despercebido e que de repente faça
sentido. Participando de raids há tantos anos, tendo
sofrido um ou outro acidente e mesmo na iminência de tantos
outros, nada nem remotamente parecido com isso já ocorreu
nas provas de que participei.
As pessoas alheias ao off-road com que conversei tendem a simplificar
o assunto ao extremo: "Esse negócio de corrida é
mesmo perigoso". Será? Nós, que chegamos
a participar de até duas ou mais provas em um mesmo mês,
não achamos perigoso. Ou, pelo menos, não consideramos
nunca a hipótese de morrermos queimados em meio aos destroços
de nossos jipes. Não durante uma prova entre amigos.
Então eu pergunto: o que foi que deu errado?
Também não seria uma simplificação
perigosa dizer que a culpa cabe à organização
da prova, que não verificou a habilitação
do motorista? Honestamente digamos, quantos de vocês já
tiveram que apresentar a habilitação durante a
vistoria de um raid? E quantas vezes isso ocorreu? E vocês,
na qualidade de organizadores de provas, quantas vezes já
exigiram a apresentação da habilitação
dos pilotos inscritos?
É claro que colocamos esse requisito em todo regulamento;
não seríamos loucos de não faze-lo. E é
claro também que supomos que todos os participantes lêem
atentamente aquela lista interminável de parágrafos
e itens antes mesmo de se inscreverem. Agimos na melhor de nossa
fé, não é mesmo? Mas sejamos honestos,
colocamos nas fichas de inscrição aquele campo
para o número da habilitação, mas jamais
perceberemos se ele for todo completado por "9"s.
E nem por isso vimos tragédias semelhantes em nossas
provas.
Será que a organização da prova no Paraná
agiu diferente?
Se, por outro lado, eles tivessem realmente exigido a apresentação
da habilitação, será que mesmo assim a
tragédia teria sido evitada? Será que isso seria
possível na prática? Notem que piloto e navegador
eram irmãos, sendo o último o mais velho. Será
que, porventura, o jipe não era então do irmão
mais velho, que na última hora teria cedido o banco esquerdo
para o caçula sentir o que seria pilotar? Haveria organização
preparada para evitar isso? Por outro lado, se a dita prova
ocorresse digamos, daqui a 12 meses, quando o piloto do jipe
já fosse maior e habilitado, será que o acidente
teria sido evitado?
Desculpem. Sinto-me um pouco à bordo de um Titanic fazendo
água e discutindo a qualidade da têmpora do aço.
Muitos dos, se não todos, os nossos maiores campeões
de monopostos já o eram muito antes de poder matricular-se
em uma auto-escola.
Um pouco se falou também de certas características
de comportamento dos Engesas. Isso foi tocado com muito tato,
provavelmente em respeito aos proprietários dessa fera
em formato de jipe. Mas deixemos de lado as cerimônias
e vamos direto ao fato: em função da geometria
de sua suspensão, os Engesas têm a tendência
de jogar para o lado ao distender as molas dianteiras. Em baixas
velocidades, isso costuma desviar a trajetória do bruto;
em altas, tudo pode acontecer. Não quero aqui iniciar
uma polêmica sobre se o jipe é bom ou ruim, se
isso pode ser corrigido ou não. É um fato, é
uma característica do projeto. E quanto isso teria contribuído
para o acidente?
O fato de o jipe se encontrar em alta velocidade quando o acidente
ocorreu, para mim, é uma discussão secundária.
Não suprimo o fato de que altas velocidades sejam fatores
determinantes na ocorrência de acidentes e sérias
agravantes em suas conseqüências. Isso supõe-se
óbvio para todos que chegaram até esse ponto do
meu texto. Só que simplesmente não temos dados
para avaliar quão alta era realmente essa velocidade.
Como já foi dito, para um habitual observador do passar
dos raids, morador da região, que fica coberto pela poeira
deixada por um jipe, qualquer velocidade pode ser considerada
alta. Sabemos apenas, por demonstração, que ela
estava acima da capacidade de seu piloto manter controle sobre
o equipamento, mesmo considerando a hipótese de um pneu
estourado.
Ocorre que, como qualquer um que já tenha participado
de um raid sabe, uma prova de regularidade só o é
até o primeiro erro. Daí, de uma arte de precisão
e refinamento, ela subitamente se converte em uma busca cheia
de adrenalina pelo tempo perdido. Nessa hora a bota abaixa,
fazemos coisas com o jipe que não faríamos com
nossa mãe à bordo, até ouvir a doce frase
de nosso navegador: "Zerou!". E então tudo
volta ao normal.
Mas por que isso não ocorreu com nossa dupla paranaense?
O que foi que deu errado?
Já vi jipes capotarem. Com maior e menor velocidade.
Já vi carros também fazerem o mesmo, inclusive
uma vez pelo lado menos confortável: o de dentro. Dentre
esses, muitos deles em realmente péssimo estado de conservação.
Mas nunca vi um que tenha "explodido", como diz a
mídia - sempre em busca de palavras fortes.
Mas será que tudo tinha que dar errado na planilha dessa
dupla? Será que traziam combustível extra em tanque
externo? O que os diretores de prova têm feito para coibir
essa prática?
O que quero dizer, antes que os que me lêem passem a achar-me
inconseqüente, uma vez que pareço não dar
importância especial a nenhum desses pontos, é
que não foi nenhum dos fatores acima que vitimou essa
dupla. Não foi nenhum desses fatores isoladamente, mas
a soma de todo o conjunto. Diz-se na aviação comercial
que nenhuma falha humana ou mecânica é capaz de
derrubar um avião. E no entanto eles continuam caindo.
O que derruba um avião é uma série de falhas
e problemas que se encadeiam em uma seqüência fatal.
É isso que derruba os aviões.
E, no meu entender, foi isso que vitimou a dupla paranaense,
piloto e navegador. Uma dupla inexperiente, pilotando um veículo
que permite os excessos mas não tolera os erros, acelera
mais do que devia e subitamente perde o controle. O que poderia
ser apenas um grave acidente transforma-se subitamente em tragédia,
pois o veículo explode em chamas. O resto já sabemos.
Se a organização da prova tivesse podido barrar
um menor não habilitado na condução de
um veículo automotor em via pública, certamente
o acidente não ocorreria. Se o piloto tivesse mais experiência
em condução off-road, provavelmente saberia melhor
reconhecer os seus limites e os de seu veículo. Se o
veículo não tivesse se incendiado após
o acidente, provavelmente o caso não teria passado de
um susto e um grande prejuízo.
Assim, para a organização da prova que pensa suspender
as próximas etapas, permita-me emitir minha opinião,
tão confortável a tantos quilômetros do
ocorrido: suspender é coisa que não pode acontecer.
Adiar é medida cautelosa e bastante recomendável.
Devemos fazer do sinistro a oportunidade da precaução.
Pois a porta deve ser fechada, sim, mesmo depois do ladrão
ter entrado. Para que outros não entrem, para que isso
nunca mais aconteça.
A hora é de refletir, a hora é de tomar medidas
urgentes para que isso jamais se repita. A hora é de
se pensar em ações mais sérias na prevenção.
Tenho participado de muitas provas onde não há
sequer vistoria. E elas são mais do que importantes.
São fundamentais. Um briefing com as equipes antes da
largada também seria uma boa medida. Seria uma excelente
oportunidade para o Diretor de Prova ter a palavra e chamar
a atenção dos participantes para os pontos cruciais,
especialmente para aqueles que envolvem maior risco para equipes
e populações. Letras grandes e pontos de exclamação
nas planilhas já não bastam mais.
Mas, acima de tudo, é hora de todos nós, organizadores,
pilotos e navegadores pararmos e pensarmos no que pretendemos
ao correr um raid. Não é então esse o nosso
hobby? O nosso passatempo que tão bem nos faz e tanto
nos ajuda a enfrentar a segunda-feira de manhã? De certo
há um risco, pois não se trata de jogo de cartas.
Mas nenhum de nós sai para correr e não voltar,
não é mesmo? Então pensemos nisso e, antes
de apontar o dedo acusador, pensemos em nós mesmos e
quanto de nós não morre junto com o piloto paranaense.
Decio Pedroso
decioapn@terra.com.br
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