O teste do Balde
>por Decio
Pedroso
Tempos atrás,
a Jipemania, uma das mais conceituadas revistas sobre off-road
do país, editada por nosso amigo Roitberg, exibiu uma
matéria testando um determinado veículo. Findo
os testes normais, ficaram curiosos para saber como os componentes
eletrônicos do motor reagiriam sob uma quantidade realmente
grande de água, situação típica
no off-road, quando vencemos trechos alagados.
Para isso,
Roitberg e sua equipe abriram o capô do veículo
e, com o motor em funcionamento, despejaram alguns baldes
de água sobre ele. Como o motor continuou a funcionar
plenamente, sem falhas ou qualquer outro defeito, a Revista
Jipemania considerou que o veículo em questão
havia passado inclusive no "Teste do Balde".
Esse teste,
naturalmente gerou enorme polêmica na JipeNet, o já
famoso Jipe Clube Virtual. Muitos questionaram sua validade,
mas eu de pronto, considerei-o extremamente válido.
E quando você vai sair
para passear de jipe, por exemplo, e a mulher fala:
- Você vai sair com esse
tempo? Não está vendo que está chovendo
baldes d'água?!?
Então? O teste é
muito válido, sim senhor! No entanto, para sua maior
realidade, dever-se-ia jogar não apenas a água,
mas também o próprio balde. Dessa forma, relaciono
a seguir o resultado hipotético, se tal teste fosse
mesmo realizado em diversos modelos:
- Jeep Willys
- o balde ricocheteia, indo parar na cabeça do proprietário.
Em seguida o motor parou mas o proprietário alegou
ser apenas entupimento do filtro de combustível,
ou bomba de gasolina, ou alguma dificuldade com o platinado,
ou ainda...
- Niva -
o balde atravessou o compartimento do motor, batendo e posteriormente
rolando pelo chão. Observações mais
apuradas notaram que o motor havia sido retirado por seu
proprietário para ser instalado o kit do AP2000.
- Samurai
- por ser maior que o próprio motor, o balde não
chegou a caber no cofre do mesmo. A equipe decidiu então
jogar o motor contra o balde, o que, para todos os efeitos,
deveria produzir os mesmos resultados, com a vantagem desse
último ser mais leve do que o próprio balde.
O proprietário, no entanto, não concordou
com a decisão da equipe de testes, o que tornou o
teste inconclusivo;
- Toyota Bandeirante
(motor MB) - o balde atravessa o vão entre
o motor e o radiador, sem alterar sua trajetória.
No chão recolheu-se apenas fios longos, como aqueles
obtidos nos trituradores de papel.
- Toyota Bandeirante
(motor japonês) - o balde atravessou o compartimento
do motor da mesma forma, mas nos fiapos recolhidos, lia-se
"Só Toyota é made in Toyota" em
diversas formas.
- Troller
Ao nos aproximarmos do referido veículo com o balde
nas mãos, foi impossível à equipe abrir
o seu capô. A cada nova tentativa de nossos técnicos
o motor MWM rugia mais forte, o que certamente comprometia
as condições de segurança do teste,
já que o veículo parecia desgovernado. Ao
consultarmos seu proprietário sobre a estranha reação,
foi-nos explicado que "o vencedor do rally mundial
de velocidade não tem que provar nada para ninguém".
- Javali
- após o contato inicial do balde com o poderoso
motor desse veículo, o primeiro se desfez, transformando-se
em uma massa disforme que com muito custo pôde ser
recolhida do chão. Consultado o fabricante do balde,
nossa equipe foi informada que atá um balde tem seus
limites operacionais. Em contato com antigos funcionários
do setor de Engenharia da extinta CBT - hoje ermitões
isolados nas nascentes de grandes rios como o Amazonas,
Solimões e Nilo - foi-nos relatado que para esse
teste, seria necessário um balde original CBT, modelo
Javali. Segundo ainda estes mesmo engenheiros - alguns deles
ocupadíssimos reinventando a roda - foi a pouca consciência
dos proprietários, utilizando peças de procedência
duvidosa que acarretaram a falência desse excelente
projeto.
- Land Rover
- ao nos aproximarmos com o balde cheio de água,
o capô desse veículo travou de tal forma que
nos foi impossível abri-lo. Seguindo orientação
do fabricante, optamos por um balde para gelo de prata com
detalhes em estanho, peça pertencente à coleção
do Palácio de Buckinghan, completado com água
Dom Perrier na proporção de 3/4 à temperatura
ambiente e 1/4 gelada. O capô só pôde
ser aberto quando uma grande capa de cashemir foi posta
sobre seus pára-lamas, impedindo que eventuais respingos
os atingissem.
- Vitara
- o balde bateu contra o motor e caiu no chão em
frente ao carro. Seu proprietário saiu de ré
pois considerou o obstáculo intransponível
(o veículo testado não tinha o kit de suspensão
da Calmini).
- Engesa
- Com o impacto do balde, a frente abaixou, subindo em seguida,
o que arremessou o balde a uma grande altura. Até
o fechamento dessa edição, não havíamos
ainda recolhido o balde de volta a esse planeta. Autoridades
do INPE compareceram ao local para avaliar as possibilidades
do veículo como LOCL (Lançador Orbital de
Cargas Leves).
- JPX Montez
- Ao abrir o seu capô, uma fortíssima corrente
de convecção impediu que a água chegasse
a ter contato com o motor, sendo atirada para cima e voltando
em forma de chuva ácida sobre a equipe de testes.
A roupa de amianto utilizada nessa ocasião impediu
maiores danos. Quanto ao balde, como ele derreteu ainda
na mão de nossos técnicos, os resultados desse
teste também não puderam ser conclusivos.
Em contato com a fábrica, o Sr. Severino, que ocupa
interinamente o cargo de Vice-Presidente e Diretor de Marketing
e Engenharia de Projetos e Produção, Gerente
Comercial, Administrativo e de RH, Chairman e Faxineiro,
nos explicou que, se isso realmente aconteceu, foi por culpa
do proprietário, já que o motor não
estava nas especificações determinadas pela
engenharia, com certeza culpa de mistura incorreta de aditivo
ou tampa do radiador não original. A equipe ainda
foi convidada a passar por lá, comer uns pãos-de-queijo,
jogar uma prosinha fora e eventualmente comprar o que restou
da fábrica.
Como vêem, aqui tudo
fazemos pelo bem da ciência e da boa informação.
Em caso de qualquer dúvida, traga-nos o seu veículo
para que possamos repetir a experimentação em
condições rigorosamente controladas.
Decio Pedroso
decioapn@terra.com.br
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