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A voz da experiência

Fotos: Ricardo Ribeiro - ZDL

Reinaldo Marques Varela, 41 anos, comerciante. Alberto Fadigatti Junior, 56 anos, analista de sistemas. Isso fora dos carros de Rally, quando estão "sossegados" em suas cidades, respectivamente São Paulo-SP e Jundiaí-SP. Entre os "ralizeiros", Varela e Fadigatti são figuras conhecidas e, juntos, formam uma das mais respeitadas duplas do Rally Off-Road brasileiro. Recém-chegados do Paris-Dakar, onde conquistaram um importante segundo lugar na categoria dos protótipos a Diesel, e prontos para enfrentarem o Campeonato Mundial de Rally Cross Country, a dupla concedeu esta ótima entrevista a Planeta Off-Road, em que fala sobre Rally dos Sertões, Paris-Dakar, além de revelar seus planos para esta temporada. Confira!

Planeta Off-Road:
Quando começou a parceria Varela / Fadigatti?
Reinaldo Varela: A parceria surgiu há cinco anos. Começamos a correr no Rally de Regularidade e depois no Off-Road.
Alberto Fadigatti: Com o Varela, a parceria começou em 1995, junto com a Copa Marlboro de Rally, da qual ficamos Campeões. Depois veio o Torneio ADRADIF, da Ford, e ficamos Campeões novamente, e ainda estamos tentando ser campeões de outros torneios que irão aparecer. Tivemos muita sorte, pois sem sorte nós não teríamos conseguido nada; espero que ela não nos abandone.

Planeta Off-Road:
Fale um pouco sobre sua carreira: quando começou? De que modalidades já participou? Quais os principais títulos obtidos na carreira?
Varela: Corro desde 1984, participando sempre de Rally. Fiz algumas provas de pistas, mas o principal foi sempre Rally. Já fui Campeão Sul-Americano de Rally de Velocidade, Tri-Campeão Brasileiro de Rally de Velocidade e Campeão Brasileiro de Rally Off-Road.
Fadigatti: Iniciei minha carreira em Rally no final de 1969, em um Rally realizado no Estado de São Paulo, chamado Rally da Integração Regional, e obtive a nona colocação entre todos os classificados da cidade de Jundiaí, ou seja, um início desastroso para um iniciante. Mas não me deixei abater por tal resultado e continuei a competir em todas as provas que podia ou tinha carro para fazê-las. Competi assim (do bolso) até 1974, quando consegui ficar Campeão Paulista pela primeira vez e fui convidado a correr pela VW em 1975. A partir desta data, a coisa ficou mais fácil e estou competindo até hoje. Neste período de aproximadamente 31 anos, competi em tudo o que você imaginar em Rally, dentro e fora do Brasil, tanto em regularidade quanto em velocidade. Nesta toada, fiquei Campeão Paulista, Mineiro, Carioca e Brasileiro em vários anos, que não sei exatamente quais.

Planeta Off-Road:
Vamos começar falando de Rally dos Sertões: apesar de ser a principal beneficiada caso a briga entre Mitsubishi e Chevrolet, em relação ao resultado final do Sertões 2000, estenda-se à Justiça Comum e a Mitsubishi venha a vencer, a equipe Troller pouco se manifestou - pelo menos aos olhos da mídia - sobre o assunto. Qual a posição oficial da equipe? A Troller apóia a Mitsubishi? E qual a opinião pessoal de vocês sobre a "briga"?
Fadigatti: Quanto ao Rally dos Sertões, nós também entramos com um recurso idêntico ao da Mitsubishi e só não demos continuidade ao mesmo pois achei que seria incoerente manter dois recursos idênticos (sobre o mesmo assunto) tomando o tempo da CBA. Quanto à suposta briga entre Mitsubishi e GMB, acho que esta discordância só se prolongou por falta de pulso da Organização, que deu margem para tudo isso, pois, para quem não sabe, houve um briefing na noite anterior à especial, em que o Sr. Diretor da Prova disse que não teria tempo máximo da especial, por causa da maré.  No dia seguinte, antes da largada da especial, houve outro briefing - que pelo regulamento tem força de lei - em que nós, participantes, solicitamos que a largada fosse dada de quatro em quatro carros e o Piloto da GMB (Edio) disse que estávamos querendo bater no carro dele para tirá-lo da prova e que não aceitava a largada de quatro em quatro veículos. O Comissário Despotivo da CBA entrou em contato com o Diretor da Prova, por rádio, e este autorizou que os carros largassem de dois em dois. Isto definido, o Comissário Desportivo da CBA (Sr. Onéssimo) subiu em um carro da prova e disse que a especial tinha sido reduzida e que em determinado momento (aproximadamente X quilômetros) a rota do GPS deveria ser abandonada e deveríamos seguir reto, em direção a um Troller azul, onde seria dada a bandeirada final. O motivo do desvio era o fato de estarem sendo feitas imagens do programa  "No Limite", da Rede Globo, no local onde a prova passaria.

Largaram primeiro o Edio (GMB), junto com o Ulysses (Mitsubishi), e depois, na segunda fila, nosso Troller e o Mitsubishi do Spinelli e do Giba. Andamos junto com o Spinelli por vários quilômetros e fomos nos distanciando dele, até encontrarmos o Ulysses (Mitsubishi) e o Edio (GMB), que tinham largado na primeira fila. Andamos os três juntos, lado a lado, por muitos quilômetros, até que assumimos a ponta, com o Ulysses em segundo e o Edio em terceiro. Foi quando o Varela me perguntou se estávamos no caminho certo, pois o Edio, que estava em terceiro, havia tomado o rumo da esquerda, em 90 graus. Eu respondi ao Varela que estávamos certos, pois a 200 metros e no visual da reta em que seguíamos estava o Troller azul com a bandeira de chegada. Passamos pela bandeirada e o Ulysses a mais ou menos cinco metros atrás. Este fato é visível na própria fita do Rally dos Sertões, onde você vê o carro da GMB dobrando à esquerda e indo embora não sei para onde.

Recebemos a bandeirada final, acho que assinamos a ficha de chegada, descemos uma rampa de areia e seguimos, pela praia, para Fortaleza. Após 15 a 20 quilômetros, quando a praia já estava com muitas pessoas e nós estávamos bem devagar, o carro do Edio passou por nós no meio dos freqüentadores da praia, em alta velocidade, e deduzi que ele estava mais perdido do que cego em tiroteio. Passou por nós e, acho eu, nos vendo em velocidade bem baixa, parou, virou seu carro e veio em nossa direção. Eu perguntei a ele o que tinha acontecido e ele me respondeu que tinha seguido o GPS. Eu lhe disse que ele tinha errado o caminho ele voltou a repetir que tinha seguido o GPS. Eu lhe disse que o Rally tinha acabado no Troller azul. Ele me perguntou como fazia para ir para Fortaleza; eu lhe respondi que era para seguir em frente que ele iria encontrar um asfalto que o levaria a Fortaleza. Ele foi embora para Fortaleza. Descemos do carro, eu, o Ulysses, o Norton e o Varela, e chegamos a desconfiar de que ele não tinha tomado a bandeirada final. Resolvemos voltar para verificar. Voltamos e checamos com o Fiscal de Chegada; o carro de Edio não tinha passado pela bandeirada final. Calculei o tempo que faltava para ele passar e esperei este tempo se esgotar. Como o tempo se esgotou e ele não passou, tiramos fotos como Campeões do Rally dos Sertões, junto com a Bandeira Brasileira.

Voltamos para Fortaleza, onde fiquei sabendo que a Organização do Rally  tinha declarado o Edio como vencedor. Em tempo hábil, protestamos, junto com a Mitsubishi. Inicialmente, o Sr. Diretor da Prova, vendo o meu recurso, disse que o Piloto da GMB tinha sido penalizado com o tempo máximo de 30 minutos e que era o ganhador. Aí eu perguntei por que 30 minutos e não 20 ou 40, onde ele havia arranjado estes 30 minutos. Resposta do Sr. Diretor da Prova: "Por que eu sou o Diretor , a prova é minha e eu faço o que eu quero. Eu já te beneficiei no ano passado, cancelando a última especial, onde você ficou atolado". Bem; no ano passado, de fato, atolamos, demoramos 15 minutos para sair do atoleiro e chegamos ao final. A diferença para o carro do Luciano Cunha e do Detlef, que eram os terceiros colocados, era de muito mais de 15 minutos e, mesmo atolando, ficamos com o segundo lugar na geral.

Após este choque de opinião, vi que não tinha escolha e entrei novamente com recurso. A Mitsubishi entendeu da mesma forma e está aí: a GMB perdeu em primeira instância, apelou no prazo hábil e perdeu novamente, pois o resultado do primeiro julgamento foi mantido. Aí, sabe o que aconteceu? A Assessoria de Imprensa da GMB soltou um comunicado dizendo que venceu o Rally Internacional dos Sertões de 2000 para toda imprensa. Até agora eu não entendi por que ela (GMB) apelou, pois o resultado foi mantido o mesmo do primeiro julgamento; ela não precisaria ter apelado, pois se ganhou (a prova) sendo que o resultado foi mantido, então apelou por uma coisa que estava ganha. Talvez tenha sido um erro de seu Departamento Jurídico quanto à interpretação ou ...

Então a posição da Troller é de aguardar os acontecimentos decorrentes de uma infeliz atitude de um Diretor de Prova. Minha opinião sobre tudo isso, incluindo o Rally Internacional dos Sertões, é que necessitamos de profissionais nas áreas administrativas.

Varela:
A Troller não se envolveu na briga porque quem  entrou com o protesto foi a Mitsubishi. Nós apoiamos; em nossa opinião, só pode ganhar uma corrida quem recebe a bandeira quadriculada, o que significa que o carro chegou. Ele (NR: Edio Füchter - Chevrolet Rally Team)  fez uma boa corrida, nós não tiramos os méritos dele, mas, infelizmente, na última especial, ele  deixou escapar. Então, em nossa opinião, não é uma questão de mérito e sim o que o regulamento fala .

Planeta Off-Road:
Uma das etapas do Campeonato Mundial de Rally Cross Country, que vocês estão disputando este ano, será realizada na mesma época do Rally Internacional dos Sertões. Qual será a opção da equipe: Sertões, contando com descarte no Mundial, ou o Baja Espanha - etapa do Mundial - prevalecerá?
Varela: A idéia e fazer o Sertões e descartar o Mundial.
Fadigatti: Acho que será tomada uma decisão na época, defendendo sempre os interesses da dupla no momento.

Planeta Off-Road:
E por falar em Mundial Cross Country, qual a expectativa de vocês em relação a esta competição? Vocês acreditam que a equipe Troller tem condições de brigar pelos primeiros lugares na categoria?
Varela: Sim, nós temos bastante chance de disputar na categoria , ainda mais agora, que teremos um motor melhor, que já estamos desenvolvendo. Nós temos chances de disputar a categoria com um Troller, um dos melhores carros da categoria Diesel.
Fadigatti: Quanto às chances da Troller conseguir um bom resultado no Mundial, eu acredito muito que isto possa ocorrer, pois temos um bom veículo e necessitamos somente de mais patrocínio; estamos trabalhando para isto.

Planeta Off-Road:
Além do Mundial de Rally Cross Country, quais são os planos da equipe Troller para 2001?
Fadigatti: Para 2001, estão nos planos o Campeonato Brasileiro, o Sertões e o Mundial.
Varela: Primeiro é o Campeonato Mundial; tentaremos sair como Campeões Mundiais. E  fazer o Campeonato Brasileiro junto para poder estar treinando e  aperfeiçoando o carro.

Planeta Off-Road:
Falando do Paris-Dakar: o rally deste ano teve um tom de "revanche" para vocês, depois do acidente sofrido no ano passado? Como foi completar o mais difícil rally do mundo e ainda por cima bem classificados na categoria?
Fadigatti: Bem, com referência ao Dakar, foi de fato uma revanche, pois eu, particularmente, fui o único que não chegou ao Cairo competindo, mas sim em uma maca de hospital, e para mim era muito importante terminar, terminar bem e, se possível, entre os cinco primeiros. Ficamos com o segundo lugar na Diesel, o que eu acho ótimo.
Varela: Para  nós foi muito importante terminarmos esta corrida. Sabemos que os acidentes podem acontecer com qualquer um, assim como bater, quebrar o carro, enfim... E sabemos também que temos condições de disputar na categoria, então, desde da hora em que saímos, que a idéia era ficar entre os cinco primeiros e, andando, percebemos que dava para disputar, mesmo poupando o carro. Então o nosso objetivo foi cumprido e para nós não foi estranho chegar, porque esse é o nosso normal. Nosso índice de quebra de carro é quase zero por cento. Então não é normal acontecer o que aconteceu no Dakar 2000.

Planeta Off-Road:
P/ VARELA: Quais as vantagens / desvantagens do carro a Diesel em relação ao movido a gasolina para uma prova como o Dakar?
Varela: Nós, que fomos com o carro original, sabemos que o carro a Diesel tem um torque  melhor e não precisa usar o restritor de ar, como os carros a gasolina. Assim você tem um pouco mais de potência do motor  do que o carro que nós tínhamos ano passado.

Planeta Off-Road:
P/ VARELA: Que diferenças você apontaria como sendo as principais entre a pilotagem no Dakar e no Sertões?
Varela: No Dakar o piso é muito pior; se você andar rápido, o carro precisará de mais apoio mecânico. No Sertões você pode andar rápido o tempo inteiro porque as especiais são menores e o piso é muito melhor.

Planeta Off-Road:
P/ FADIGATTI: Que diferenças você apontaria como sendo as principais entre a navegação no Dakar e no Sertões?
Fadigatti: As diferenças entre a navegação do Dakar e a do Sertões é como a da água para o vinho. No Dakar, as metragens são exatas, utiliza-se o GPS, que é alugado de uma empresa da área, um GPS grande, com um visor ótimo, e é utilizado onde ele é realmente necessário: o deserto. No Sertões, necessita-se muito mais de um bom odômetro, pois temos quase que estradas por toda a prova.

Planeta Off-Road:
P/ FADIGATTI: Muito se critica os road-books (planilhas) do Rally dos Sertões, por serem escritos em Português e repletos de gírias e expressões locais, o que seria inadequado para uma prova que pretende ser internacional. Porém, tivemos a oportunidade de ver uma planilha do Paris-Dakar deste ano e ela é toda feita em Francês. Na sua opinião, os road-books de provas internacionais deveriam ser feitos em uma língua igualmente internacional (Inglês, no caso) ou até mesmo em várias línguas? Isso dificulta muito o trabalho do navegador? E os erros de planilha? Sabemos que os erros de medição e até de direção não são muito raros nas planilhas do Sertões. Isso acontece também nas provas internacionais, como no Dakar ou as etapas do Mundial de Cross Country?
Fadigatti: Quanto ao road-book, no Dakar, é sua opção tê-lo em Francês ou Inglês. Você deve ter visto o em Francês, mas eu utilizei sempre o escrito em Inglês. Mas o que você aponta está correto. No livro de bordo não é necessário utilizarmos gíria, sermos engraçadinhos com pegadinha ou qualquer coisa do gênero, pois um erro de metragem no Rally pode causar irreparáveis danos materiais e, o que é bem pior, acidentes com gravidade. Este foi, no meu ponto de vista, o pior equívoco da Organização: não ter se preocupado com um livro de bordo bem feito. No Mundial da Argentina, por exemplo, em 4 mil quilômetros de prova, não teve nenhuma correção a ser feita e no Dakar tinha em média três por dia (mas não eram de muita importância ).

Planeta Off-Road:
Vocês, que participaram ativamente da preparação do novo regulamento para o Rally Cross Country no Brasil, acreditam que agora conseguiu-se um consenso em relação ao assunto? O novo regulamento, ainda em análise pela CBA, é compatível com as provas do calendário internacional?
Varela: O Regulamento não serve  para provas internacionais porque não temos carros homologados e, se não temos estes carros homologados, temos que trazer o regulamento para uma realidade mais brasileira do que internacional, para poder segurar o pessoal que está aqui e trazer mais gente para correr com regulamento onde todos possam disputar. Ninguém gosta de entrar para perder; mas pessoas gostam de  pelo menos  disputar.
Fadigatti: O nosso regulamento deverá passar por uma fase de amadurecimento, pois temos uma formação escolar e congênita de levar vantagem em tudo e é difícil tentar ter um regulamento que seja obdecido por todos, em seu próprio prejuízo, às vezes. Mas acho que estamos no bom caminho. Eu não vi ainda o regulamento, depois lhe dou a minha opinião. Mas não é somente um bom regulamento que irá fazer boas provas; necessitamos de dirigentes que obedeçam o regulamento e não enfiem os pés pelas mãos. Quanto a datas conflitantes, eu acho um absurdo; caso específico do Sertões e do Mundial da Espanha, em que teremos que decidir onde iremos correr.

Planeta Off-Road:
E por falar em calendário internacional, vocês acreditam que o Brasil tem hoje condições de sediar uma etapa do Mundial de Cross Country, como vem sendo cogitado? "O que ainda falta?"
Varela: Hoje, não temos condições técnicas, no que se refere à parte promocional. Em termos de estrada, não deixamos nada a desejar, aliás somos muito melhores. Mas falta aperfeiçoar o nosso administrativo.
Fadigatti: Em relação ao Brasil ter uma prova do Mundial de Cross Country, acho que está mais do que na hora. Mas necessitamos de pessoas competentes por trás deste aparato todo e, o que é principal, bons patrocinadores.

 

Dotzi Planeta Off-Road
geral@planetaoffroad.com


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