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A dureza do Dakar sem apoio
Fotos: divulgação

Aos 31 anos de idade, o jornalista Carlos Guilherme Clauset - ou Cacá Clauset, como é mais conhecido - é figura de destaque no meio "ralizeiro" brasileiro. Tem diversos rallies nacionais e internacionais no currículo, sendo talvez o mais importante deles o Paris-Dakar 2000, quando correu pela equipe Hollywood-Troller e teve ninguém menos que Amyr Klink como navegador. Em 2001, Clauset retornou à mais difícil competição off-road do mundo, porém pilotando uma picape Mitsubishi L-200 praticamente original e sem contar com absolutamente nenhum apoio, a não ser o de seu próprio navegador, o preparador de carros Jorge Nieckle. Uma grande aventura, que o próprio piloto passa a nos contar a seguir...

Planeta Off-Road: Vamos falar sobre o Dakar: no ano passado, você correu por uma equipe - a Hollywood-Troller - que tinha vários carros e uma boa estrutura de apoio. Este ano, a Troller levou apenas um carro à prova, com um investimento bem mais modesto. A seu ver, o que ocasionou esta diminuição na estrutura?
Cacá Clauset: Na verdade, eu é que criei, organizei e montei a equipe Hollywood-Troller. Fui até a Europa buscar informações, corri atrás de dicas e montamos uma equipe de primeira linha. Foi a maior equipe daquele ano na prova. E terminamos com três carros pontuando. A Troller não conseguiu manter o investimento, faltava uma pessoa que teria que fazer o que eu fiz no ano passado. Correr atrás de patrocínio não é muito fácil e somente contatos não significam dinheiro na conta. Mas de todo modo, acho que eles fizeram a coisa certa, o Reinaldo batalhou e foi muito bem na prova. Tem todo o mérito do mundo. E além disso, tem o meu grande amigo Fadigatti, que eu acho muito legal e que merecia mais do que ninguém chegar em Dakar.

Planeta Off-Road: Como era a estrutura de sua equipe no Paris-Dakar 2001? Você contou com algum tipo de apoio da Mitsubishi?
Cacá Clauset: Esse ano eu montei uma estrutura pequena, na medida do possível com o que tínhamos de dinheiro. Fomos muito bem, completamos a prova com um carro original - éramos a equipe mais fraca da prova e deixamos muita gente para trás. A Mitsubishi foi muito importante para a equipe, aliás, imprescindível, pois forneceu as peças de reposição, apoio técnico e muito mais.

Planeta Off-Road: Faça um breve relato sobre como é dia-a-dia de uma equipe que disputa o Paris-Dakar, a competição off-road mais difícil do mundo, contanto com uma estrutura modesta como a que você e o Jorge Nieckle utilizaram este ano.
Cacá Clauset: Uma estrutura pequena significa que você vai ter poucas horas de sono, muito trabalho e muita adrenalina. Acordávamos bem cedo, ficávamos no carro por até 16 horas e, após isso, tínhamos que revisar o carro no apoio. Tudo sozinho. Teve pelo menos quatro noites que não dormimos por falta de tempo. Isso acumula e no final do rally você está em frangalhos. O problema é que quando a gente pisa o pé no pódio, recebe um troféu pela bravura, esquece de tudo. Nem se lembra do perrengue que passou a poucos dias atrás. A memória não guarda os perigos, dificuldade e nem cansaço, fica só a alegria.

Planeta Off-Road: Você acredita que uma equipe com a pequena estrutura que vocês levaram para a prova deste ano tem chances de vencer o Dakar na categoria ou a estrutura de equipe faz muita diferença?
Cacá Clauset: Jamais uma equipe como a nossa poderia pensar em ganhar o Dakar. As equipes de ponta investem milhões de dólares e competir contra isso é impossível. Acho que com um carro bem preparado (US$ 100.000) e mais um apoio razoável (um caminhão T4 e outro T5 - US$ 200.000) você consegue entrar entre os cinco primeiros. Mas para isso, além de tudo, tem que ser muito bom piloto.

Planeta Off-Road: Em algum momento da prova você chegou a pensar em desistir?
Cacá Clauset: Cheguei a pensar em desistir quando capotamos. Achei que a prova seria muito dura e competir com o carro capotado seria uma insanidade. Quem me levou foi o Jorge, que me incentivava a competir e falava que o que estava estragado era meu ego, e não o carro. Continuei e hoje agradeço muito a ele. Se fosse um navegador bundão, a gente teria desistido.

Planeta Off-Road: Quais as alterações feitas na L-200 R para disputar o Dakar e como o carro se comportou durante a competição?
Cacá Clauset: A L-200 era praticamente original. O motor e a suspensão eram iguais à que a gente pode comprar na loja. Fiquei impressionado com sua resistência. Estava esperando uma prova mais branda e quando a coisa engrossou, achei que o carro não iria agüentar. Mas ela me surpreendeu e fomos juntos até a bandeirada.

Planeta Off-Road: Você pretende disputar as próximas edições do Paris-Dakar? Quais são seus planos em relação a esta competição?
Cacá Clauset: Para o próximo ano, eu pretendo ir com um carro mais competitivo. Não ir mais para chegar, mas sim para andar na frente. Sei que isso custa caro, mas estou trabalhando desde já e espero que consiga alcançar o objetivo.

Planeta Off-Road: E quanto às provas realizadas no Brasil? Você acredita que o novo regulamento do rally cross-country brasileiro aproxima o País do circuito internacional ou ainda falta muito para chegarmos ao nível do que é feito lá fora?
Cacá Clauset: Acho que o novo regulamento deveria ser o FIA, acho que fazer um regulamento novo é andar de marcha-à-ré. Mas como foi feito por uma associação de pilotos, tenho que ser democrático o suficiente para aceitá-lo, mas não acho que é a solução definitiva. O tempo dirá quem está com a razão.

Planeta Off-Road: Você acredita que o Brasil já reúne condições para sediar uma etapa do Mundial de Rally Cross-Country? Por que?
Cacá Clauset: O Brasil tem total condição de sediar uma prova. Falta apenas o patrocínio para isso. Se a organização não estiver à altura, há muita gente que pode ser contratada para fazê-la.

Planeta Off-Road: Você pretende disputar o Campeonato Brasileiro de Rally Cross-Country este ano? E o Sertões? A dupla com Nieckle será mantida? E o carro? Você pretende continuar correndo de L-200 R?
Cacá Clauset: Vou fazer o Sertões. O Campeonato inteiro eu ainda não sei. Minha agenda está bastante cheia. Quanto ao Jorge, se ele quiser, será sempre bem-vindo. E minha L-200 será sempre meu xodó. Nem sei se tenho coragem de colocar ela de novo em uma corrida, acho que ela já me deu alegria demais.

 

Dotzi Planeta Off-Road
geral@planetaoffroad.com


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