A
aventura dos Bandeirantes pelo Brasil
Por: Elisangela e Júlio
Partimos
rumo a nossa aventura no dia 9 de fevereiro de 2004. Saímos
de São José do Rio Preto - SP, de madrugada, ainda
estava escuro, mas não conseguimos dormir tamanha a ansiedade.
Nossa primeira parada foi em Brasília. Após oito
horas de viagem, duas de congestionamento e algumas fotos na
capital, seguimos em direção a Planaltina-GO para
encontrar uma pousada mais barata. Após uma curta e tumultuada
noite de sono, chegamos à conclusão de que realmente
às vezes "o barato pode sair caro", pois o
lugar mais parecia um hospício, um casal passou a noite
inteira discutindo e a mulher berrava como uma louca! Nem tomamos
café e tratamos de fugir em direção a Porto
Nacional, já em Tocantins a 150km de Ponte Alta de Tocantins,
entrada para o deserto do Jalapão.
Contrariando a previsão do tempo, onde o dia estaria
sujeito a chuvas e trovoadas, o céu estava lindo, totalmente
azul e temperatura amena. Rodamos 300 km pelas estradas precárias
do Jalapão, e nos surpreendemos com emas e veados campestres
cruzando a pista. Logo chegamos a Cachoeira da Velha e a primeira
impressão foi decepcionante, pois estávamos loucos
de vontade de dar um mergulho e a cachoeira mais parecia as
Cataratas do Iguaçu, tamanho o volume de água.
Após algumas fotos, seguimos em direção
a Mateiros, cidade muito hospitaleira situada no centro do Parque.
Tínhamos a impressão de termos voltado no tempo...As
portas das casas ficavam sempre abertas a qualquer hora do dia,
mesmo que não houvesse ninguém. Todos se conheciam
e a noite os moradores se reuniam nas poucas e privilegiadas
casas que possuíam uma televisão. As crianças
brincavam nas ruas escuras e esburacadas até altas horas
da noite. Definitivamente a palavra "violência"
não fazia parte do vocabulário daquele povo simples
e feliz.
À aproximadamente 50 km antes de Mateiros, nos deparamos
com a primeira maravilha do parque, as dunas do Jalapão.
São realmente de tirar o fôlego, de uma cor laranja
nunca vista antes em outras dunas, com oásis e coqueiros.
Simplesmente impressionante! Chegamos a Mateiros com o sorriso
estampado de orelha a orelha e satisfeitíssimos por nosso
primeiro dia no Jalapão.
Depois de três dias de viagem e marrons de poeira, o sorriso
era inevitável. Um bom banho gelado e a deliciosa comida
da dona Rosa renovaram os ânimos e estávamos prontos
para outro dia de estrada. Acordamos com o galo cantando e ainda
estava escuro quando partimos para o Fervedouro, lugar difícil
de se explicar, só vendo pra crer. O Fervedouro é
uma nascente de água mineral que sai de um buraco no
chão e sobe com uma força impressionante. Tem
cerca de dezesseis metros de profundidade. O mais incrível
é que você pode pular ou tentar ficar em pé
mas não afunda, pois a água te impulsiona para
cima como se tentasse te jogar para fora. Simplesmente fantástico!
Logo em seguida fomos nos banhar nas águas cristalinas
da Cachoeira da Formiga, que tem uma coloração
única, num tom verde esmeralda e cheia de peixes. Um
ótimo lugar para passar o dia fazendo um piquenique.
Partimos no fim da tarde em direção a Palmas,
onde passamos a noite e seguimos viagem rumo aos Lençóis
Maranhenses/MA. A estrada precária fez o dia ser longo
e estressante e com certeza um dos mais difíceis. Para
chegarmos a Balsas, onde dormimos, foi um sufoco! Os buracos
mais pareciam abismos e pra piorar nossa situação,
era noite, o que dificultava nossa visão. De lá
fomos para São Luis. Chegamos aliviados e famintos e
achávamos que nossa noite seria tranqüila após
sairmos para jantar no Centro Histórico...Outro engano...
Depois de uma enorme vacilada fui furtado.
Levaram meus documentos, cartões de crédito, talões
de cheques... Foi um grande baque na viagem. Até pensamos
em desistir e voltar, pois não teríamos dinheiro
para completar o percurso, afinal estávamos só
no começo da viagem.
Depois de uma breve reflexão, chegamos à conclusão
de que se economizássemos poderíamos prosseguir.
E assim foi feito. Claro que ficamos chateados com o acontecimento,
mas nossa decepção seria bem maior se não
continuássemos com nossa viagem tão sonhada. Acordamos
bem cedo e partimos em direção a Barreirinhas,
principal cidade do Parque dos Lençóis. O final
de semana estava apenas começando...
Logo
que chegamos em Barreirinhas um guia mirim já se apresentou
e não parou de falar até concordarmos em levá-lo.
O "pequeno grande" Raimundinho. Almoçamos as
margens do rio Preguiça e seguimos rumo a Lagoa Azul.
Logo no primeiro aguaceiro perguntei se carros passavam com
facilidade e no mesmo instante ele já estava respondendo
que sim, que não tinha problema e blábláblá...
Adivinhem!!! Literalmente atolamos até a cintura, molhando
todas as nossas roupas, som do carro, barraca... só um
trator para tirar a gente de lá. Encontrei até
um peixe se debatendo no meu banco! Tínhamos então
duas opções: rir ou chorar...Ficamos com a primeira,
rsrsrsrs...
Fica aí um conselho: Cuidado com guias mirins. Eles são
bem convincentes e parecem conhecer a região melhor do
que qualquer outra pessoa, mas não é bem assim...
Depois da ótima hospitalidade maranhense e mais uma vez
contrariando a previsão do tempo fomos, já com
um guia experiente, até a Lagoa do Paraíso. O
nome tem tudo a ver...Céu azul em meio a uma imensidão
de dunas e piscinas naturais formadas pelas chuvas! Mais uma
vez o snorkel do jipe pagou o investimento, pois mergulhamos
diversas vezes ate chegarmos no parque.
O Parque dos Lençóis é uma espécie
de divisa entre mata fechada e deserta com lindas lagoas de
águas cristalinas. Um ótimo lugar para descansar
e refrescar-se. Andando 5 minutos para dentro do parque você
se sente num deserto onde o único barulho é o
do vento. Aí é só escolher a lagoa que
mais te agrada e ficar curtindo o silêncio e a paisagem.
Perfeito para esquecer todo o stress da “cidade grande”.
Acordamos
cedo, como de costume e nossa próxima parada seria Paulinho
Neves, digo seria, pois após várias tentativas,
muitos atoleiros, 4 horas atolados, e vários conselhos
para desistirmos, resolvemos ir direto a Camocin, cidade próxima
a Jericoacoara. Foi um dia pesado, 16 horas de viagem, mas foi
o mais sensato que podíamos fazer.
Jericoacoara foi o lugar onde ficamos mais tempo. Cinco dias
na maravilhosa praia cearense. O belo caminho de Camocin a Jeri
já anunciava o que estava por vir: lindas praias desertas,
água cristalina, muitos atoleiros a vencer e um belo
céu azul, só faltava uma cerveja bem gelada, que
alias foi a primeira coisa que providenciamos... Comemoramos
com muita cerveja, macaxeira, muita água de coco e tudo
o que tínhamos direito, afinal a pior parte off-road
já tinha passado. Jeri é uma vila de pescadores
sofisticada, não tem asfalto e é de difícil
acesso, só buggi ou carro com tração nas
quatro rodas para chegar lá. Entre as suas muitas atrações,
como as lagoas Azul e Paraíso, Pedra Furada, Guriú
e Tatajuba, a maior delas é ver o pôr do sol de
cima de uma duna enorme. Esse evento encerra o dia em Jeri e
reúne toda a galera, por volta das 17horas. A duna, com
cerca de 40 metros de altura e o mar logo abaixo, compõe
talvez, o mais belo por do sol já visto.
Próximo destino, Pipa-RN. Antes, porém, fizemos
uma breve parada em Fortaleza para nos recuperarmos de uma dor
de estômago, com direito a febre, enjôo, dor de
cabeça, enfim literalmente “zoados”. Passamos
um dia inteiro de cama, mas nada que um dia de descanso não
resolvesse.
Enfim chegamos a Pipa, uma praia bem aconchegante, com belos
restaurantes, muitos turistas estrangeiros e belíssimas
falésias. Foi nossa primeira noite acampando e ao abrirmos
a barraca imediatamente nos lembramos de Barreirinhas - lençóis
maranhenses - nossa primeira atolada, pois o cheiro de mofo
da barraca molhada era insuportável. Depois de horas
tentando tirá-lo, à noite, cansados, com fome
e nada dele diminuir, resolvemos dormir lá mesmo, mas
sem a cobertura, pois no céu havia estrelas e nenhum
indício de chuva.
Logo a lei de Murffi entrou em ação e no meio
da noite uma pancada de chuva, primeira e única de toda
a viagem, nos acordou assustados e improvisamos uma cobertura
com uma lona que havia no Jipe. Aquela foi uma longa noite...
Ficamos muito pouco na Pipa, pois com a chuva quase não
fizemos muitas coisas e aproveitamos para colocar ordem no “Jipão”
e nas roupas molhadas, antes de partirmos para Alagoas.
Particularmente estávamos muito ansiosos para conhecer
as famosas praias de Alagoas, pois muito havíamos ouvido
falar de seus encantos e realmente foi como esperávamos.
Paramos
em Maragogi, a aproximadamente 100km ao norte de Alagoas, cidade
tranqüila e pacata. Na maré baixa quando os recifes
ficam mais evidentes (7 km da costa), pode-se nadar entre eles,
na companhia de peixes coloridos e se deslumbrar com a cor azul
de sua água.
Último lugar de nossa pequena expedição
foi nada mais nada menos que a Chapada da Diamantina. Lugar
mágico e incrivelmente bonito. Ficamos três dias
e acho que se fossem trinta ainda seria pouco. Passamos os dois
primeiros em Lençóis, uma cidadezinha muito agradável
situada no coração da Chapada. Suas ruas estreitas
de paralelepípedos e suas construções antigas
dão um charme especial ao lugar. As noites costumam ser
bem agitada, pois há bares e restaurantes para todos
os gostos e bolsos.
Mas, se você quiser aproveitar bem o dia e fazer os inúmeros
passeios que os guias oferecem, é melhor não exagerar
na cerveja! A maioria deles envolve trilhas e caminhadas, além
de começarem bem cedo. Mas vale a pena...
No primeiro dia conhecemos o rio Mucugê, com suas cachoeiras
e piscinas naturais, a Lagoa da Pratinha, de uma cor muito bonita
e ótima para um mergulho ou quem sabe uma Tirolesa, mas
o que mais nos impressionou foi a vista da Chapada do alto do
morro do Pai Inácio. Simplesmente linda...Vale a pena
também conhecer a Gruta da Pratinha, é bem ampla
e cheia de formações interessantes.
Nosso segundo dia foi dedicado exclusivamente à Cachoeira
da Fumaça, com 400 metros de queda livre. É realmente
gigantesca! A trilha para vê-la por cima é de aproximadamente
12 km (ida e volta). Não é pesada, mas exige algum
esforço físico nas subidas e descidas. O bom é
que todo o cansaço é imediatamente esquecido quando
chegamos ao topo de onde se pode ver sua grandiosidade. É
uma experiência única. A sensação
que sua imagem proporciona é do tipo que fica gravada
na mente e que não pode ser explicada, somente sentida...
Chegamos exaustos e com as pernas doloridas, mas estávamos
felizes e satisfeitos.
No
terceiro e último dia fomos para Andaraí, onde
conhecemos o Poço Azul e o Encantado. No primeiro era
permitido nadar, com uso de colete salva-vidas devido a sua
profundidade que pode chegar à trinta metros. Mas o segundo
sem dúvida é o mais impressionante. Fica dentro
de uma caverna onde um feixe de luz solar ilumina seu interior
refletindo o azul do céu na água do poço.
Parece um tipo de ilusão de ótica, pois demora
um pouco para percebemos onde começa a água, devido
a luminosidade da caverna. Ver fotos...
A Chapada Diamantina é um lugar surreal e instigante
e deixa um gostinho de quero mais a quem a visita. Com certeza
saímos de lá com essa sensação!
Na volta para São Paulo assunto era o que não
faltava, pois tínhamos visto tantos lugares lindos, cada
qual com suas particularidades e conhecido tanta gente com costumes,
sotaques e crenças tão diferentes que nos levaram
a concluir que valeu a pena! Nossa percepção da
beleza e grandiosidade do Brasil aumentou muito e olha que percorremos
APENAS 10 estados, uma pequena parte do território: Goiás,
Tocantins, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte,
Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.
Ficávamos tentando escolher um lugar em especial, mas
era impossível. Todos foram marcantes de alguma forma.
Percorremos ao todo 12.000 km em 28 dias, chegando em São
Paulo no dia 6 de março. Nos preparamos muito para essa
viagem que superou todas as nossas expectativas. Tivemos alguns
momentos difíceis, abatidos pelo cansaço, mas
jamais nos arrependemos. Ficamos imaginando como algumas pessoas
podem passar a vida inteira sem ousar conhecer outros lugares
e quantos empecilhos elas encontram para não fazê-lo.
Estas são as mesmas pessoas que nos chamavam de loucos
enquanto planejávamos nossa viagem. Na nossa opinião,
loucura é passar pela vida sem descobrir o quanto ela
pode ser bela! Viajar é a melhor maneira de se fazer
essa descoberta. Só tem um problema: VICIA...
Já estamos planejando a próxima...
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