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Uma aventura pela Estrada do Inferno
Na
estréia desta seção Expedições,
Minas Off-Road traz para seus leitores a história de
uma viagem á folclórica Estrada do Inferno,
grande ícone do off-road brasileiro, feita por um grupo
de jipeiros de Porto Alegre-RS, a bordo de dois Lada Niva
e um Toyota Bandeirante, durante a Semana Santa de 2000.
O relato apresentado a seguir é de autoria de Luciano
Duarte, um dos participantes da Expedição. O
formato "diário de bordo" e o jeito bem-humorado
de Luciano contar as aventuras do grupo prende a atenção
do leitor, fazendo com que ele "participe" da viagem.
Confira!
A Estrada do Inferno, por Luciano Duarte:
Buenas, voltamos! Cá estamos todos sãos e salvos.
Histórias mil para contar, fotos dezenas para mostrar
e um sorriso aberto para lembrar.... Quem foi curtiu, quem
ficou está se mordendo; mas como jipeiro é uma
raça masoquista por natureza, não vou deixar
de relatar os fatos!
Saímos quinta-feira
de Porto Alegre, pontualmente às 22h15, praticamente
no horário previsto, 20h30! Liderando o comboio, iam
o Flávio, a Adriana, o Cleber e a namorada no, Niva
branco; logo atrás iam o Rafael e a Renata com a Toyota
Azul "Calcinha" e, fechando a fila, Luciano, Carol,
Marcelo e Ronald no Niva bordô. Antes da saída
da Tia Zefa, apareceu o Gustavo Heck (amigo do grupo), recitando
palavras proféticas, com a segunda via da chave do
Niva Galo Véio na mão: "Toma que tu vai
precisar!" Não é que ele estava certo!...
Partimos para a primeira parada, no osto Ipiranga da Agronomia.
Abastecimento, calibragem de pneus, um óleo aqui, uma
água ali e finalmente, às 23 horas de quinta-feira,
botamos a roda na estrada. A viagem até Mostardas foi
tranqüila e sem incidentes, com muita chuva em alguns
trechos, mostrando a diversão que teríamos pela
frente. Chegamos por volta das 2 horas da madrugada no hotel
Scheffer, em Mostardas. Demos "bom dia" para o dono
e nos acomodamos para um merecido descanso antes de dar início
aos trabalhos propriamente ditos. Acordamos cedo na Sexta-Feira
Santa e, depois de um bom café, com muito sol e chuva
alternados e ao mesmo tempo, abastecemos os veículos
e saímos em direção à praia.
Com céu nublado
e algumas chuviscadas, umas até bem fortes, avançamos
pela orla até o farol de Mostardas. Parada estratégica
para fotos, muitas fotos!!! Voltamos para a praia e seguimos
por aí até um acesso à Lagoa do Peixe.
Depois de nos informarmos devidamente sobre onde atravessar
a mesma, seguimos até o local indicado pelos "nativos".
Passando por cima de uma lama rasa e "desalojando"
dezenas de carangueijos, seguimos pela beira da lagoa, com
água no para-lamas do Niva. Tudo certo e mais uma paradinha
para fotos ilustrativas da aventura.
A partir da lagoa, seguimos por uma estradinha até
o asfalto da BR 101, de onde iríamos para Tavares reabastecer
novamente e partir finalmente para a Estrada do Inferno. No
caminho, encontramos um aventureiro mais aventureiro do que
nós: um ciclista nipoamericano que estava pedalando
a dois anos, vindo do Canadá! É mole?!?! Detalhe
importante: ele estava com o boné do Grêmio Football
Porto Alegrense! Nota-se porque ele chegou até aqui.
Abastecidos "até os gurgumilhos", saímos
de Tavares e pegamos 10 Km de asfalto antes de começar
a brincadeira. Nesse trecho, sabe-se lá por que, tem
uns 200 metros de lama braba entre um asfalto e outro. Na
passada, desatolamos uma Saveiro que estava "atascada"
até a porta no barro preto. Nada que um tranquinho
de Toyota não desse jeito. Logo em seguida, entramos
na "nossa" lama e assim fomos: reduzidos, bloqueados
e tracionados, desvendando os mistérios escondidos
no caldeirão do inferno. A estrada estava completamente
enlameada, com muita água, mas em nenhuma vez tivemos
dificuldades em passar os obstáculos. Por volta das
13 horas, paramos para o almoço.
Montamos acampamento na beira da estrada,
no bosque de pinheiros. Como a chuva era imprevisível,
apesar do céu momentaneamente azul, estacamos uma lona
entre os Niva e demos início aos trabalhos culinários.
Depois de um estupendo almoço, recolhemos todos os
apetrechos e seguimos viagem.
Logo em seguida, resolvemos deixar a Estrada do Inferno e
seguir um trecho pela Lagoa dos Patos. Assim o fizemos, seguindo
também sem muita dificuldade pela margem da Lagoa.
Difícil mesmo foi achar uma saída para voltar
para o "paraíso". Depois de rodar por algumas
fazendas e conversar em alguma língua estranha com
os habitantes da região, seguimos as "precisas"
indicações dos mesmos e achamos a estrada infernal
onde encontrava-se a igreja Universal, como nos havia explicado
nosso informante. Aleluia, irmãos!
Com um cheiro doce, de plástico queimando, seguimos
nosso caminho, investigando as possibilidades do odor que
insistia em nos acompanhar. Depois de horas de investigação
minuciosa nos componentes elétricos do Niva bordô,
nosso "atento " Zequinha Ronald percebeu que a fumaça
que atrapalhava sua visão e prejudicava sua respiração
vinha da lâmpada do porta-malas, instalada ao seu lado.
A lâmpada estava ligada e, como as demais peças
do Niva, era superdimensionada para seu receptáculo,
o que acabou derretendo o mesmo, além de queimar o
casaco do Zequinha Marcelo, que encobria a lâmpada.
A noite já começava a cair
e resolvemos acelerar o passo até Bojuru. Comigo na
frente e com o Marcelo de navegador, tomamos atitude de rally
e pisamos fundo. Voavamos pelos lamaçais, espalhando
água por onde passávamos e deixando os passarinhos
atônitos com nosso desempenho. Ao cair da tarde, chegamos
em Bojuru. Tentamos o hotel da cidade e tivemos uma surpresa:
estava lotado! Sem pouso, saímos em busca do CTG da
cidade, onde nos informaram que poderíamos passar a
noite. Mais uma das profecias de Pai Gustavo começava
a tomar corpo: no CTG não encontramos niguém,
nem os cavalos. Partimos então à procura do
capataz, que morava "logo ali atrás". Depois
de várias tentativas das mais diversas formas de comunicação
com os estranhos habitantes do possível lar do capataz,
desistimos e voltamos, já na escuridão total,
para os veículos. Esta etapa foi fácil, pois
o arranque da Toyota havia "dado um tempo" e por
isso o Rafael a deixou ligada, o que nos guiou sem vacilos
até o comboio. Cabe dizer que tivemos que dar uma puxadinha
na Toyota para a mesma ligar quando do ocorrido.
Mas a vingança da Toyota seria cruel, depois de ter
sido puxada em duas trilhas seguidas pelo destemido Niva Galo
Véio! Sem muitas alternativas e já meio nervosos
com a situação, seguimos o Rafael, que havia
dado como alternativa seguir pela praia até um local
propício para camping. Ledo engano. Bastou entrar na
praia para sentirmos o perigo que corríamos. A areia
estava completamente molhada, sendo muito difícil o
avanço. Segunda reduzida em alto giro era a escolha
e uma névoa impedindo a visão além de
poucos metros mostra a situação em que nos encontrávamos.
Logo em seguida nos deparamos com um rio cortando a praia.
Eu e o Rafael, que fazíamos uma parede de luz para
o Flávio, que estava sem faroletes, paramos. Quando
descemos dos veículos
para confabular, percebemos a roubada em que havíamos
nos metido. Os pés afundavam na areia molhada, grudando
"quiném" chiclete. Depois de trocar uma ou
duas idéias absurdas do tipo "vamos tentar ir
até o farol de Estreito e dormir lá", decidimos
sensatamemte voltar para a Bojuru, pegar a BR e acampar onde
desse nesse trecho.
Demos a volta e encontramos os rastros da vinda. Com oito
olhos bem abertos, eu, a Carol e meus dois zequinhas guiamos
o comboio pelos "nossos trilhos" de ida. Achamos
a saída da praia no breu total e voltamos para a estrada
de acesso a Bojuru. No meio do caminho, com a ajuda de Deus,
nos perdemos! Nos perdemos e achamos algumas árvores
num campo limpo, perfeito para o acampamento. Sem pestanejar,
fizemos um semi-círculo com as viaturas para barrar
o vento e montamos acampamento. Barracas armadas, era hora
da bóia. Uma massa coletiva com molho de queijo e presunto
picado acalmou os nervos do pessoal e botou todo mundo para
dormir o sono dos inocentes.
Novo dia, nova vida. Acordamos num lugar muito bonito, com
cavalos, caturritas e quero-queros nos saudando. Café
da manhã rápido e pé na estrada, ou melhor,
roda na lama. Voltamos a Bojuru e reabastecemos. Na cidade,
encontramos outro comboio que vinha de Mostardas pela estrada
do Rincão. Com o tempo curto, resolvemos fazer este
caminho para chegar ao farol de Cristóvão Pereira.
E assim fomos, voltando pela lama da BR até Tavares
e cruzando com tartarugas desavisadas na margem da estrada.
Em Tavares, reabastecemos os veículos e nós.
Recomendo a Pizzaria Azul, duas quadras depois do posto BR
de Tavares, em direção a Mostardas. Comemos
até dizer chega pois, embora o serviço no cardápio
fosse a la carte, o serviço na mesa era de café
colonial. Pagamos 5 Reais por pessoa e saímos rolando
do lugar.
Pegamos então o caminho para o Rincão.
Estradinha fácil, sem grandes problemas. Depois de
chegar no Rincão, seguimos com novas informações
para o Farol de Cristóvão Pereira. Depois de
algumas quebradas erradas aqui e acolá, nos perdemos
num bosque de pinheiros já próximo à
lagoa, onde achamos um emissário dos céus em
céu cavalo cinza. Nos apontando o caminho e perguntando
se nossos carros "puxavam nas 4", o gaúcho
caborteiro seguiu sua cavalgada. Os jipeiros caborteiros seguiram
as instruções e avistaram a lagoa e, logo em
seguida, o tão esperado Farol.
O sol começava a deitar no horizonte e tocamos em frente.
Eu ia na frente, desbravando o caminho e, desavisadamente,
caí num fundão numa das entradas na lagoa. O
capô não chegou a submergir, mas os danos viriam
a seguir. Chamado, pelo rádio, pelo Flávio,
paramos para uma completada de fluido de freio no Niva branco,
que vinha com a luz acesa no painel a algum tempo. Quando
fomos avançar, o Niva bordô não ligou
mais, apresentando vários sintomas de "banho frio".
Tive aparentemente um curto circuito, pois ao dar o arranque,
o alarme ligava. Ao tirar o fusível do alarme, nada
acontecia com o arranque, pois não havia mais bateria.
Uma puxadinha e o Niva pegou; continuamos então até
o farol, onde uma deslumbrante paisagem nos aguardava. Fotos,
banho para os mais "guasca": Luciano, Carol, Rafael
e Renata.
Problemas! O Niva agora não pegava mais nem no tranco.
Reboque de Niva branco até o local do acampamento e
era isso por hoje. Amanhã vemos! Montamos as barracas
e preparamos a janta, com direito a fogueira, estrelas cadentes,
conversa sobre satélites artificiais e por aí
afora.
Domingo de manhã. Páscoa! O coelhinho deve ter
ficado atolado no caminho, pois além de não
ganhar ovinhos, o Niva não quis funcionar. Solução:
reboque de Toyota, "a vingança". Nesta parte,
a profecia 1 de Pai Gustavo se concretizava: a chave da ignição
do Niva quebrou! Se não tivesse a reserva.... Saímos
do farol por volta de 10 da manhã, em direção
a Mostardas. O Niva branco na frente, a Toyota logo em seguida
e eu muito próximo da Toyota! No meio do caminho, tentativa
de fazer um cambão com tronco de pinheiro, devido aos
trancos da Toyota. Cambão feito, seguimos. Andamos
50 metros e, na primeira entrada na lagoa, a corda que amarrava
o tronco no Niva correu e lá se foi nosso trabalho.
Tinha até ficado bonitinho! Decimos trocar um dos dois
cabos de aço que estávamos usando antes para
o reboque pela corda do Rafael. Sendo mais elástica,
os trancos ficaram mais amenos, diminuindo o sofrimento do
piloto do Niva Galo Véio, que estava com o coração
na mão.
Tudo corria bem
com o reboque até que um tronco apareceu na frente
da Toyota que, já conhecendo estes obstáculos
literalmente de outros Carnavais, passou incólume pelo
mesmo, deixando-o para o indefeso Niva. Bem feito, tomou um
trancão! O Niva "estaqueou" na mesma hora
quando viu o tronco. Descemos e começamos a cavar para
desenterrar o "gravetinho" de 1,5 m de comprimento
e 25 cm de diâmetro, que insistia em segurar o Niva
pela balança da suspensão dianteira. Retirado
o tronco, alguns tranquinhos para desatolar e vamos embora.
Chegamos em Mostardas às 14 horas. Acordamos um eletricista,
gentilmente indicado por um jipeiro local (eles estão
com um jipe clube novo lá e nos passaram o telefone
para contato). Defeitos independentes e concomitantes no alternador
e na ignição eletrônica detectados, deixamos
a bateria carregando, fomos almoçar, passar uma água
no chassis e calibrar os pneus. Com o Nivão funcionando
de novo, seguimos nosso caminho de volta para Porto Alegre.
Chegamos, sem mais incidentes, às 19 horas, cansados,
sujos e felizes. Mais uma vez, cumprimos nosso objetivo. Todos
que foram, voltaram. Quem ficou com inveja: semana que vem
tem mais!
Agradecimento especial ao Rafael e ao Flávio, pelo
reboque e pelo companheirismo.
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