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Jalapão - parte 3

Às 5h da manhã, Carlos nos acordou e, após o café da manhã (café, pão e manteiga), reforçado pelos nossos lanches no carro, seguimos para a Cachoeira do Formiga. A estrada é a mesma que liga Mateiros a São Félix do Tocantins, Novo Acordo e, por fim, Palmas. É o percurso que o ônibus faz para levar e trazer os moradores e os poucos visitantes que não tem transporte próprio. São 16 horas para percorrer 400 km (quando o ônibus não quebra). Atravessamos a primeira tronqueira desde que entramos no Jalapão; curiosamente é bem na estrada principal.

Ao lado da cachoeira, mora o proprietário, que cobra um Real por pessoa. Chegamos pouco depois do amanhecer e o sol subia por trás das árvores que circundam o poço, criando raios de luz que atravessavam o vapor que subia do poço (a água é quente o ano inteiro). A água tem um tom esverdeado. Ao mergulhar, a cor muda para o azul turquesa, ainda completamente cristalina. Amarramos cordas nas árvores que circundam o poço, formando uma teia na qual foi possível ficar de frente para a correnteza, sendo massageado. Uma árvore na margem caiu e se apoiou na forquilha de outra, do lado oposto do poço, formando um ponto ideal para se fixar uma corda. Balançando nela, pode-se cair no meio do poço e a correnteza nos traz de volta à margem. Atravessando o poço por uma pinguela, pode-se fazer uma caminhada por uma trilha que segue ao longo do riacho.

De lá, seguimos (ou pelo menos pensamos estar seguindo) para o Fervedouro. Entramos no entroncamento indicado pela placa e continuamos pela estrada (cheia de desvios e bifurcações como todas estradas do Jalapão). Como o local demorava a chegar, perguntamos a um grupo de trabalhadores que recuperava um trecho de estrada e fomos informados que tínhamos passado em muito o nosso objetivo e estávamos rumando para o povoado de Mumbuca, local aonde se trabalha artesanato. Bem, como estávamos lá para reconhecer, seguimos adiante.

O povoado foi formado por uma comunidade negra que, fugindo da seca, migrou do sul da Bahia para a região. Um grupo de mais de 20 famílias de tradição matriarcal trabalha o artesanato com as sempre-vivas (chamadas na região de capim-dourado) e a palha do buriti, que, reunidos em um intrincado trançado, formam os mais diversos utensílios. Tal riqueza já foi descoberta pela revista Marie-Claire e pelo Sebrae, que está patrocinando a construção de um galpão onde as artesãs poderão trabalhar juntas e expor seus trabalhos.

O dia ainda estava começando, então seguimos para o Fervedouro. Voltamos até a bifurcação e pedimos informação à senhora que surgiu na porta da casa. Ela se indentificou como sendo a proprietária das terras e nos indicou o rumo certo. Paramos o carro à margem de uma vereda e iniciamos a caminhada por uma trilha bem marcada, ladeada por um riacho de águas transparentes. Alguns minutos e surge, em meio às bananeiras, um poço de águas azuladas, refletindo as folhas que pendem ao seu redor. Aparentemente raso (cerca de 50cm), com areia branca e fina no fundo, o poço tem águas mornas. Ao entrar, tem-se a impressão de que a areia está em movimento; ao chegar no meio do poço, tem-se a confirmação: o piso some aos nossos pés e o visitante afunda até o peito, sendo então sustentado pelo fluxo de água que sobe do fundo do poço. É possível sentar de pernas cruzadas e ficar boiando. Ao sairmos do poço, as roupas de banho estavam cheias de areia e a solução foi então entrar no riacho onde o Fervedouro deságua. Qua surpresa foi perceber que a água do riacho é muito fria quando comparada com a do Fervedouro! Seguimos então em direção a Ponte Alta; ainda deveríamos visitar três cachoeiras e duas praias naquele dia.

A viagem de volta também foi repleta de novidades, paisagens que não vimos na ida vinham em nosso encontro neste retorno. Pouco depois de passar pela ponte sobre o Rio Novo, entramos na placa que indicava a Praia dos Evangélicos (um grupo de evangélicos descobriu esta praia e passou a se encontrar periodicamente no local, que passou a ser conhecido pela população local desta forma). A estrada se torna uma trilha e passa por um dos locais mais belos que vimos. Campos floridos, veredas com seus lagos e buritis e, à medida em que nos aproximávamos da margem do rio, a vegetação se tornava mais exuberante e viçosa. Como tudo mais no Jalapão, há um momento em que se perde o ponto final para que de repente ele surja: um momento mágico em que chegamos a uma praia de mais de 500 m de extensão, com mais de 100 m de largura, sem marcas de gente. Apenas algumas pegadas de gado e uma outra que identificamos como sendo de um felino, provavelmente uma onça.

Ao chegar na estrada principal, mais uma parada no Rio Novo para conferir a terceira e última praia que visitaríamos e, novamente, pé na estrada. Deste momento em diante, surgiu um problema: o filme que levamos foi insuficiente. Estávamos sem ter como registrar as últimas cachoeiras.

Um pouco antes de chegarmos, uma saída à direita e pouco depois chega-se à fazenda do seu Chiquinho, de onde seguimos para as cachoeiras do Brejo da Cama (pequena; tem poço comprido e é possível pular da beira do barranco dentro do poço, já que está situada em um buraco no meio de uma planície) e a do Lageado (ainda menor que a do Brejo; vale a pena ser visitada apenas se tiver tempo sobrando; deve-se dar prioridade às outras atrações). Já nas proximidades de Ponte Alta, a cachoeira da Sussuapara fica, insuspeita, ao lado da estrada, depois da terceira ponte de concreto, a contar da saída da cidade. Tem um poço mínimo, mas vale a pena pelo visual: no fundo de um pequeno canyon, uma ducha e um também pequeno poço. Outra vantagem é que fica bem no caminho, não se perde tempo com estradas de acesso.

Já de volta a Ponte Alta, uma parada para experimentar o salto do alto da ponte (é alta mesmo, recomendamos apenas para aqueles mais corajosos, já que o impacto com a água pode ser bem dolorido se cair de lado ou muito inclinado) e seguimos para Porto Nacional. Pernoitamos lá mesmo e, no dia seguinte, o jipe passou a manhã no lava-jato, para retirar algumas "toneladas" de poeira.

No início da tarde, fomos até Palmas para uma visita à mais nova capital do Brasil, com menos de 200 mil habitantes e que se parece mais com um canteiro de obras: tudo está sendo feito, a começar pelo Palácio do Governo. Uma parada para um lanche rápido e lá vamos nós de volta para casa. O pernoite foi no mesmo hotel da vinda, só que desta vez tomamos café no restaurante do hotel. Fizemos uma parada em Itiquira, para um banho de cachoeira, em Três Marias, para comer um peixe, e chegamos em BH no domingo, às 22h.



 

 

 

Dotzi Planeta Off-Road
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