Expedição Lençois Maranhenses
Texto e fotos:
Marcelo Fuzinato
Uma aventura de 8000 kms onde as belíssimas paisagens
foram apenas plano de fundo, diante de tantas aventuras e culturas
diferentes num mesmo país.
"Como de costume levantamos acampamento logo que amanheceu
pois o dia seria longo e atravessaríamos uma área
desconhecida. Partimos em direção a São
Félix do Tocantins para fazer nosso último abastecimento
no Jalapão. Felizmente conseguimos abastecer, buscamos
informações sobre nosso destino que seria Alto
Parnaíba. Tínhamos duas informações,
um caminho por Prata passando pela serra que divide os estados
do Tocantis e Maranhão e outro por Lizarda, ambas cidades
à leste do Tocantis. Alguns minutos depois ficamos sabendo
que a estrada por Prata estava bloqueada devido às chuvas
e nem a máquina estava descendo a serra para arrumar
os estragos de alguns dias atrás. Nossa
opção seria ir por Lizarda. Seguimos beirando
cercas de fazendas e desviando de veredas numa estrada, hora
de areia fofa, hora de barro. Esse caminho que estávamos
atravessando corta o Tocantis em direção norte,
contornando a divisa do estado. Passamos por lugares incríveis
variando de campo aberto com montanhas ao longe e estrada de
areia até trechos onde precisávamos atravessar
as veredas que sempre tem muita água, principalmente
nessa época do ano. O dia passava e a expedição
seguia, com muito off-road, até pararmos num trecho onde
uma ponte tinha aberto um vão onde os carros não
passariam, mas com a ajuda do guincho de um dos jipes reconstruímos
a área e pudemos seguir adiante. A cidade de Lizarda
se tornava mais perto, mas ainda tínhamos muito o que
andar naquele trajeto off-road belíssimo, onde marcas
de pneus nem apareciam, cortando fazendas imensas e pouquíssimas
pessoas que moram isoladas de tudo o que acontece em nosso mundo
moderno. Chegamos na cidade às 19:00hs, foram quase nove
horas do mais puro off-road no cerrado brasileiro, conseguimos
uma pensão, da Dona América, tomamos algumas boas
doses de cerveja gelada extremamente satisfeitos por completar
essa incrível travessia. Amanhã ainda teríamos
metade do dia em estradas de terra e partiríamos logo
cedo."
Quando
fechamos o roteiro e os destinos que queríamos percorrer,
nossas mentes já viajavam em travessias pelo Brasil como
a descrita acima, tirada do relato do 7o dia dessa
expedição. Nosso objetivo principal foi conhecer
o Parque Nacional dos Lençois Maranhenses, lugar de incrível
beleza e acesso ainda precário, embora a estrada que
liga São Luis à Barreirinhas já esteja
pronta facilitando bastante o acesso de quem deseja cohecer
esse lugar.
Além do objetivo de chegar aos Lençois Maranhenses,
ainda percorreríamos mais 7 parques, sendo 5 nacionais
e 2 estaduais, portanto nosso roteiro estava fechado. Saímos
de São Paulo e o comboio foi se formando à medida
que avançávamos em direção ao Norte
do país, no triângulo mineiro finalmente o grupo
estava formado e pronto para 30 dias e 8000 kms de aventura.
Partimos em direção ao Deserto do Jalapão
no Tocantis, onde ficamos três dias acampados e pudemos
percorrer todo o lugar. É uma das localidades de menor
densidade populacional do Estado com 1,3 habitantes por Km2.
Paisagens exuberantes e exóticas, mistura de cerrado,
savana e deserto. Agreste e primitivo, o Jalapão é
roteiro imperdível para os amantes da aventura, com atrativos
para variados e exigentes gostos. A região quente e seca,
atinge temperaturas médias anuais de 30 graus centígrados.
A época mais apropriada para visita é entre abril
e setembro, na estação de seca, quando a ausência
das chuvas facilita o acesso às trilhas arenosas. Num
oásis em pleno cerrado, encontramos a riqueza da vegetação
nativa, crescendo na areia, sob o calor e sol intenso. São
praias de areias claras e águas límpidas no rio
Sono, rio Novo e vários ribeirões que brotam das
nascentes entre as matas e campos. Em um breve passeio é
possível apreciar no Jalapão, praias, cachoeiras,
conjunto de montanhas, lagos e dunas, paisagens que só
vendo para crer.
Saindo
do Jalapão cruzamos a divisa do Tocantis com Maranhão
com a incrível travessia descrita no início dessa
matéria. Do sul do Maranhão seguimos em direção
norte até a porta de entrada dos Lençois Maranhenses,
a cidade de Barreirinhas, onde pudemos descansar e relaxar nesse
paraíso natural, a essa altura já estávamos
a uma semana na estrada e ficamos na região por mais
três dias.
Chover muito em todo o litoral do Maranhão é a
garantia de que o espetacular ciclo da natureza se renovará
no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que
ocupa quase toda a parte ocidental da costa do Estado, desde
o Golfão Maranhense até a foz do rio Preguiças.
Depois das chuvas, as lagoas estarão cheias e cristalinas
transformando o único deserto brasileiro em um grande
oásis natural. É o período de reprodução
das espécies e é quando a beleza dos Lençóis
se torna mais deslumbrante. Para compreender essa beleza é
preciso estar lá. Não é fácil defini-la.
As dunas de areias branquíssimas que mudam de forma,
altura e lugar, envolvidas pelo vento que sopra do mar, parecem
"imensos lençóis abandonados distraidamente pela
cama". Entre as dunas, que se estendem por uma área de
155 mil hectares, entre os municípios de Barreirinhas
e Primeira Cruz, incontáveis lagoas verdes e azuis fazem
dos Lençóis a própria imagem do paraíso
terrestre. Muitas travessias de rios, dunas e areia a perder
de vista foram parte dessa aventura onde exigiu muito dos carros
e da equipe.
Finalmente deixamos Barreirinhas já com saudades e seguimos
em direção ao Delta do Parnaíba, atravessando
as estradas precárias de areias e dunas até a
cidade de Tutóia, num total de aproximadamente 5 horas.
Chegamos na cidade onde encontramos um lugar para descansar
os ossos. Durante essa travessia um grupo de Venezuelanos nos
acompanharam, estavam viajando pelo Brasil à cerca de
20 dias e pretendiam chegar em Jericoacoara no Ceará.
Nem bem os ossos estavam esticados e já estávamos
dentro de um barquinho que mal cabia nossa equipe de sete pessoas,
mais o barqueiro Seu Caravela acompanhado de seu filho.
Durante a travessia do Tocantins, Maranhão, Piauí
e outros estados, entregávamos doces (balas e pirulitos)
para as criança carentes. Era muito emocionante ver o
rosto de alegria misturada com timidez dessas crianças
tão sofridas vivendo no meio do sertão, longe
de toda nossa modernidade e violência. Nessas horas paramos
e refletimos o significado disso tudo e como nosso país
é imenso, com vários mundos dentro de um só.
A partir de Tutóia entramos definitivamente no estado
do Piauí, seguindo sentido sul chegamos ao Parque Nacional
das Sete Cidades - seu nome tem origem em sete formações
geológicas com formas curiosas devido à erosão
de milhares de anos. Estas formações inspiraram
a imaginação dos que começaram a explorar
o local que achavam-nas parecidas às ruínas de
cidades, daí o nome: sete cidades. Uma atração
imperdível é a Furna do Índio, com pinturas
rupestres que datam de mais de 6.000 anos. Acampamos dentro
do parque, que possui um boa estrutura para receber os turistas,
com área para camping e uma pousada. Cruzamos o parque
de norte a sul, entrando pela cidade de Piracuruca e saindo
por Piripiri.
Nosso próximo destino seria São Raimundo Nonato,
cidade de apoio do parque da Serra da Capivara. Partimos logo
cedo e percorremos o dia todo por estradas asfaltadas, rasgando
o estado do Piauí do norte em direção ao
sul. Foram aproximadamente 10 horas de estradas e no início
da noite já estávamos em nosso destino. O
parque, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela
UNESCO, abriga um importante sítio arqueológico.
As inscrições rupestres e as peças arqueológicas
encontradas no Sítio do Boqueirão da Pedra Furada
(aberto à visitação) são indícios
da mais antiga ocupação do homem em terras americanas.
A vegetação do parque é do tipo Caatinga
(aroeira, xique-xique, macambira). Há ainda a presença
de animais selvagens da região: jaguatiricas, gaviões,
gatos-do-mato, tatus, pacas, iguanas... Os estudiosos da região
contam que atravessando o Estreito de Behring, o homem passou
pela a América do Norte, cruzou a América Central
e permaneceu uma temporada no estado do Piauí. Aqui ele
se estabeleceu, se multiplicou, foi capaz de deixar as suas
inscrições pintadas nas rochas, enterraram seus
mortos que se transformaram em achados arqueológicos.
Outro presuposto vem de cientistas que querem provar que o homem
mais antigo das três Américas viveu no Piauí.
Tentam ainda comprovar que os vestígios do carbono 14
encontrados na serra, são de uma fogueira produzida pela
mão humana e não pela combustão natural.
A essa altura já nos aproximávamos da divisa de
estado do Piauí com a Bahia e seguíamos para cidade
de Caracol por estradas de terra batida, com objetivo de conhecer
mais um sitio arqueológico: o Parque Nacional da Serra
das Confusões. Infelizmente as notícias não
foram boas e, por motivo de estudos na região, o parque
de mais de 500.000 hectares estava fechado à visitação,
mesmo depois de conversarmos com a pessoa do Ibama responsável
pelo parque, em sua casa sentados na varanda e comendo melancia.
Decidimos seguir viagem. Ainda tínhamos metade do dia
com luz do sol para nos deslocarmos até nosso próximo
destino.
Depois de conseguirmos informações sobre essa
travessia da divisa entre Piauí e Bahia, seguimos com
notícias nada animadoras sobre as condições
das estradas, principalmente a essa altura que a chuva insistia
fortemente em cair. Quando
partimos sabíamos que seriam estradas de terra, mas não
trilhas alagadas onde a velociade não passava de 10
a 20 km/h com água passando por cima dos capôs
do jipes. Para percorrer cerca de 180 quilômetros, demoramos
praticamente 7 horas com água e mais água nas
trilhas e alguns trechos chovendo torrencialmente. A cada bifurcação
precisávamos parar e buscar informações
de onde estávamos indo. Escurecendo conseguimos chegar
em Morro Cabeça no Tempo e depois de ver as condições
precárias do único local para dormimos, resolvemos
acampar em algum lugar, perguntamos ao povo local que nos informou
que poderíamos acampar na escola da "nova cidade".
Montamos o acampamento nessa escola, fizemos nosso jantar e
logo estávamos dormindo, amanhã teriamos uma grande
travessia de terra e precisávamos partir logo cedo.
Preparamos nosso café-da-manha e partimos logo cedo em
baixo de muita chuva. Nosso destino seria chegar em Santa Rita
de Cássia, onde encontraríamos o asfalto para
continuar o percurso. A chuva não dava nenhuma trégua
o dia todo e atravessamos trechos de baixadas totalmente alagados
onde a água insistia em passar por cima dos capôs
dos jipes. Outros com lama, buracos e algumas vilas no caminho.
Nesse dia entramos na Bahia e seguimos para Avelino Lopes, Arueria
e finalmente Santa Rita de Cássia. Em Avelino Lopes o
pessoal do bar não acreditava que pudéssemos chegar
e diziam outras opções de rotas, desviando cerca
de 350 km por asfalto. Mas como tinhamos a informacão
que tinha condições de passar, arriscamos e em
cerca de 10 horas completamos toda a travessia. Passamos, por
incrivel que parece, pelo polígono da seca completamente
embaixo de chuva e quase tudo alagado, realmente um fato bastante
pitoresco. A cidade que chegamos no final do dia é banhada
pelo Rio Preto, um sub-afluente do Rio São Francisco,
ele deságua no Rio Grande que por sua vez deságua
no São Francisco. Conseguimos nos instalar em um pousada
bem localizada, pois tinhamos levado um recado de um senhor
que estava com o carro quebrado na estrada e era dono da pousada.
Finalmente conseguimos esticar os ossos, tomar um belo banho
e comer em um lugar bacana. Como em toda a cidade a pergunta
se somos do Rally e a hospitalidade continua em todos os lugares
que passamos. Amanhã seguimos para a Cachoeira do Acaba
Vida, quase divisa com Tocantins a Oeste. Nesses dois dias traçamos
no mapa um trecho onde não há indicação
da existência de estrada. E estrada não existe
mesmo, mas foram dois dias que nos divertimos bastante e conhecemos
uma área bastante inóspita na divisa do Piauí
com a Bahia.
Agora partimos de Sta. Rita de Cássia e continuamos seguindo
em direção sul cruzando a Bahia pela parte mais
a Oeste do estado. Finalmente por volta das 21:00hs chegamos
a cidade de São Domingos já no estado de Goiás,
porta de entrada para o Parque Estadual de Terra Ronca. Apesar
da distância não ser grande, nosso deslocamento
foi um pouco lento, tivemos que parar em um posto para fazer
uma rápida manutenção em um dos jipes.
A essa altura todos apresentavam alguma avaria.
O
maior atrativo turístico do parque são, sem dúvida,
as grutas e cavernas, que possuem esse nome devido ao "ronco"
dos rios dentro de suas cavernas. O parque atrai ainda espeleólogos,
turistas, aventureiros e curiosos de toda parte do mundo para
conhecer as belezas naturais, florísticas e da fauna,
os rios de águas cristalinas, que formam lagos subterrâneos,
e os enormes salões internos das cavernas, ricos em minerais,
e formações rochosas, formadas pelas belas e expressivas
estalactites e estalagmites. A diversidade biológica
do parque é enorme: já foram registradas mais
de 150 espécies de aves e quase 50 de mamíferos.
A vegetação, formada por cerrado, cerradão,
matas de galeria e veredas, se constitui em excelente habitat
para uma enormidade de espécies animais. A região
é ainda muito bem servida por rios, dos quais cinco pertencem
à bacia do Paranã e formam um dos mais belos e
significativos conjuntos geoespeleológicos do mundo,
alguns inclusive sumindo dentro das cavernas. Passamos dois
dias inteiros visitando o parque e já completávamos
20 dias de viagem e precisávamos seguir, dessa vez tomaríamos
o rumo para sudeste para atravessarmos todo o Parque Nacional
Grande Sertão Veredas.
Partimos logo cedo, atravessamos o Terra Ronca completo e seguindo
por Posse, Sitio d´Badia, Formoso, finalmente adentramos
no parque. Vale salientar que esse parque não possue
estrutura nenhuma, nem portaria de entrada e de saída.
Como havíamos planejado cruzar todo o parque, navegávamos
utilizando o GPS (Global Position System), pois a região
é cortada por inúmeras estradinhas de terra que
levam a antigas fazendas. Portanto, antes de se aventurar por
esse parque vale a pena se informar muito bem sobre as condições
da travessia e das bifurcações. Finalmente no
final de tarde conseguimos arrumar uma área para acampar,
ao lado de um belo rio onde duas famílias de sem terra
moravam. Montamos nosso acampamento, fizemos nosso jantar e
pudemos ficar apreciando o belíssimo céu, longe
de qualquer iluminação artificial.
Homenagem ao escritor Guimarães Rosa, o Parque
Nacional Grande Sertão Veredas preserva parte do planalto
denominado Chapadão Central, que divide as bacias dos
rios São Francisco e Tocantins. Com topos relativamente
planos, sua altitude varia entre 600 e 1.200m, enquanto os vales,
limitados por margens bem definidas, têm áreas
sujeitas a inundações. A vegetação
é dominada pelo Cerrado, com suas diferentes fisionomias,
mata de galeria nas margens dos rios Preto e Cariranha, vereda,
campo limpo, campo sujo, cerrado propriamente dito e cerradão.
Os caminhos passam por estradas que apresentam erosões,
trechos de areião, terra batida e mata fechada. Será
preciso muita atenção à navegação,
pois às vezes as trilhas irão sumir e reaparecer
discretamente metros a seguir. Se possível, viaje com
mais de um carro. O lugar é um ótima opção
para quem quer praticar fora-de-estrada mais pesado, passando
por erosões e bancos de areia.
Atravessamos
o parque de oeste a leste, saindo na cidade de Chapada Gaúcha
e seguindo por uma estrada de terra batida e cheia de costela
de vaca até Arinos, onde finalmente descansamos. Nossa
viagem já estava chegando ao fim e a sensação
de estarmos em Minas Gerais já nos dava um coforto de
estarmos próximos a nossas casas, exceto Moa e Lori que
ainda tinham que retornar ao Rio Grande do Sul. De qualquer
maneira o tempo a essa altura voava e nos lembrava do conforto
de nossos lares.
Seguimos de Arinos para Paracatú, Coromandel, Araxá
e pegamos estrada de terra novamente até São João
Batista, entrada Norte do Parque Nacional da Serra da Canastra.
Conseguimos no meio da escuridão acampar ao lado de uma
bela cachoeira, ainda fora dos limites do parque. O dia amanheceu,
desmontamos o acampamento, tomamos um belo e refrescante banho
de cachoeira que há dias não víamos e seguimos
atravessando a belíssima Serra da Canastra, berço
do Rio São Francisco e a belíssima cachoeira Casca
D´Anta onde serviu de último abrigo para retornarmos
dessa incrível aventura.
Depois de experiência em expedições pela
América do Sul tais como (Expedição Pré-Colombiana-2001,
Expedição Ano 2000, Expedição ao
Fim do Mundo Ushuaia-1999, Expedição Atacama-Machupicchu-Titicaca-fev
2000 e Expedição Rumo a Ushuaia-Ilha Chiloé-2001)
vividas pelos integrantes dessa viagem, a experiência
de viajar em nosso país continua sendo incrível
e como diria o velho Gonzagão "Minha vida é andar
por esse país, pra ver se um dia descanso feliz..." não
saía de nossas cabeças.
Meus sinceros agradecimentos aos meus companheiros nessa aventura,
Fernando Teubl Ferreira, Daniel Vianna Paglia (Puff), Marco
Aurélio De Paoli, Tércia Pilomia De Paoli, Moacir
Bergonsi e Loreni Ribeiro. A todos que apoiaram e incentivaram
nosso trabalho, a Oficina Especializada TOYOTA (Sr. Carlos),
TOYOMAX e PECCIN, fornecedora dos doces que distribuimos a inúmeras
crianças. Uma realização da GAIA
Expedições.
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