Expedição BR163: explorando o interior do país
Texto e Fotos:
Evandro Carobrezzi
A expedição BR163 teve como objetivo explorar
a região Centro-Oeste do Brasil utilizando a BR163 e
descobrir locais ainda inexplorados. Cruzamos a Chapada dos
Guimarães rumo ao município de Nobres por caminhos
totalmente off-road. De lá partimos ao Pantanal, explorando
suas belas planícies alagadas através da Transpantaneira.
O roteiro terminou em Bonito, onde visitamos várias cachoeiras,
grutas e fizemos a trilha da boiadeira.
Saímos de São Paulo no dia 06 de Julho com destino
à Rio Verde no Mato Grosso do Sul, 1200 quilômetros.
De
Rio Verde resolvemos mudar um pouco o trajeto e fomos direto
para Chapada, saindo à direita na BR163 em direção
à Dom Aquino e depois Campo Verde. A estrada para a Chapada
dos Guimarães, 72 quilômetros por um caminho fantástico,
reserva surpresas. Em meio a muita poeira surge uma plantação
de algodão, um mar branco. O Mato Grosso é conhecido
como "morro branco" pois é responsável
por 50% da produção nacional.
Na Chapada dos Guimarães fomos guiados pelo Paulo, amigo
do André que nos encontraria em dois dias. Visitamos
a Cachoeira da Martinha, formada pelo rio da Casca, a Gruta
Azul e caverna do Aroi Jari, que significa caverna das almas.
Para chegar até lá, caminhamos por cinco quilômetros
em meio ao cerrado. Nossa primeira parada foi na caverna Aroi
Jari, é impressionante o tamanho da entrada que, segundo
Paulo, é a segunda maior caverna em arenito do Brasilcom
sua galeria de água interligando-a às outras cavernas
da região. A próxima parada foi na Lagoa Azul,
chegamos ainda antes do sol entrar na carverna e aguardamos
o espetáculo formado pelos raios de sol adentrando as
águas azuis e cristalinas da caverna, um show imperdível
da natureza. Após inúmeras fotos, tomamos o caminho
de volta e paramos no mirante da cidade para curtir um fim de
tarde esperando o por do sol.
No segundo dia de Chapada passamos no Parque Nacional de Chapada
dos Guimarães. Logo pela manhã fizemos uma caminhada
até o "pé" do morro do Jerônimo,
o ponto mais alto do Estado do Mato-Grosso, passando pelas formações
rochosas como Mesa de Sacrifício, Sacerdotisa e Jacaré
de Pedra. De lá fomos ao circuito das cachoeiras a primeira,
7 de Setembro ou "sonrisal", apesar de uma queda pequena possui
um hidro magnífica, foi o primeiro relax da viagem. A
próxima foi a Cachoeira do Pulo, nome extremamente sugestivo
- trata-se de uma queda de aproximadamente sete metros com um
profundo lago e uma prainha de areia. Passamos por mais outras
duas quedas, mas não paramos para banho. A Cachoeira
das Andorinhas fecha este circuito com chave de ouro: são
aproximadamente 40 metros de queda com um volume considerável
de água e um lago cristalino. Novamente chegamos no melhor
horário do sol e pudemos ver a formação
de arco-iris no pé da queda, após um banho tomamos
rumo à Cachoeira Véu de Noiva. O Véu de
Noiva é a cachoeira mais alta da chapada, com 80 metros
de queda em uma garganta de arenito alaranjado.... realmente
um visual fantástico. Aproveitamos a parada para um almoço
e seguimos em frente. Mais 18 quilômetros em estrada de
chão até a Cidade de Pedra e Paredão do
Eco. O
por do sol foi sem dúvida alguma o melhor momento da
viagem. O mirante é um local mágico de onde vemos
quase todo o vale da chapada até a cidade de Cuiabá.
O paredão do eco - uma ilha de arenito formando um corredor-
ressoa tudo que falamos. A cidade de pedra está exatamente
no centro geodésico da América, a um ponto de
1500 quilômetros equidistante entre o atlântico
e o pacífico.
No dia 10 de Julho encontramos o restante da equipe, o Helinho
e André Thuronyi. Agora o comboio, formado por duas Lands
Defender 90, uma Yamaha Ténéré e uma Toyota
SW4, saiu da Chapada em direção ao distrito de
Água Fria em um caminho todo feito por estrada de chão.
Seguimos pelo paredão da Chapada em direção
a Serra Azul, um divisor de águas da bacia do Prata e
da bacia Amazônica. Quem vai pela BR163 não tem
a possibilidade de ver a paisagem do cerrado se alterando.
Pelo caminho passamos pelo morro do Cambambi, onde foi encontrado
um fóssil de Dinossauro que hoje encontra-se no museu
do Rio de Janeiro. De lá também foi possível
avistar o local onde foi gravado o No Limite 2. A estrada é
toda de areia, tornando inevitável um 4x4. Passamos pelo
morro do Japão. Um fato muito curioso e polêmico
é que este morro já foi comprado por integrantes
da religião budista e existe um plano de reproduzir aqui
o Buda esculpido em pedra que foi destruído no Afeganistão.
O morro lembra bastante uma canastra, com paredões altos
e íngrimes.
No caminho para Nobres passamos pela barragem hidroelétrica
do Manso, que fica ao pé da Serra Azul, onde tínhamos
um encontro marcado com o Sr. André Bezerra, secretário
de turismo do município de Nobres e o Sr. Everaldo Barros
guia e profundo conhecedor da região Nobres. O Sr. Everaldo
será nosso comapanheiro enquanto estivermos nesta região.
No caminho, a Toyota SW4 teve o vidro traseiro quebrado sem
qualquer explicação, por sorte tínhamos
plástico contact à mão e rapidamente fizemos
um reparo para evitar que a poeira entrasse.
A
Serra Azul tem ao seu pé uma formação de
rochas de calcário, com inúmeras cavernas, dentre
elas podemos citar a Gruta do Morro de Onça, que foi
a primeira caverna a ser registrada na SBE (Sociedade Brasileira
de Espeleologia). Atravessamos o rio Cuiabá próximo
a sua nascente em direção ao Balneário
Estivado, já no município de Nobres. O Balneário
de propriedade do Sr. Donato, situa-se na rodovia MT-241 no
km 70, possui um grande lago de águas cristalinas com
inúmeras espécies de peixes, como piraputangas
e piaus. Além da possibilidade do mergulho junto aos
peixes, o Sr. Donato literalmente chama os peixes, basta ele
gritar "xuxa" que todos os peixes obedecem seu chamado viando
ao seu encontro. Passamos a noite acampados na casa da simpática
Sra. Lola, mãe do Sr. Everaldo. A fazenda fica à
72 quilômetros de Nobres, as margens do rio Cuiabazinho.
Dia de conhecer Nobres, iniciamos pelo gruta azul. A chegada
à gruta se dá pela parte superior e, já
na entrada, é possível avistar uma formação
de inúmeras estalactites e ao fundo um imenso lago azul.
Porém, quando descemos até as margens do lago
é que nos damos conta da beleza do local. Na parte inferior
da gruta encontram-se também inúmeras estalagmites,
algumas com mais de dois metros de altura. Quando olhamos o
lago da extremidade direita da gruta notamos que este tem a
forma do mapa do Brasil. Após inúmeras fotos,
o Sr. Everaldo nos convidou para um mergulho no lago, vale lembrar
que este passeio deve sempre ser feito na compania de um guia,
a fim de preservar a integridade local.
Bom, se já estávamos deslumbrados com a beleza
do lago e das formações vistos pelo lado de fora,
foi no mergulho (snorkel) que pudemos entender o que o Everaldo
nos falava. A visibilidade alcança 50 metros com impressionante
definição, e o melhor que o azul se torna muito
mais intenso quando visto pelo lado de dentro do lago. Ao fundo
existe uma capela formada por estalactites submersas que dão
uma imponência ao local, ao lado esquerdo existe um "tunel"
que forma um rio interligando esta caverna as outras da região,
segundo Everaldo a profundidade chega aos 18 metros. Logo à
frente da gruta exite uma caverna de aproximadamente 20 metros
de extensão que dá acesso a uma dorinha de 20
metros de profundidade com mais um lago azul formado pelo calcário.
Ainda na mesma propriedade fomos ao poço azul, mais uma
formação de calcário. Este lago tem dimensões
menores que a gruta, mas por outro lado é povoado por
um cardume de Piraputanga, um peixe muito comum nesta região.
Último dia em Nobres, fomos direto à Cachoeira
da Cerquinha, e de lá fomos a gruta de mesmo nome, uma
caverna com mais de 1600 metros de extensão que requer
uso de equipamento de escalada. Ainda na mesma propriedade fomos
a gruta do Duto, uma caverna de 400 metros de extensão
por onde corre um rio internamente. O passeio é bem interessante
pois, caminhamos dentro d'água enquanto inúmeros
morcegos cruzavam à nossa frente.
Partimos então por uma trilha de 60 quilômetros
e chegamos a um local onde foi possível observar algumas
pinturas rupestres. Existe a suspeita que próximo ao
local exista um sítio arqueológico, mas o acesso
é bastante difícil. De lá tomamos outra
trilha de aproximadamente 70 quilômetros entre fazendas
de soja e algodão. Por volta das 15h00 chegamos até
a cascata do Quebó, uma queda de aproximadamente 15 metros.
Por ser um local ainda inexplorado não existe acesso
a parte do lago da cachoeira.
A maior surpresa ainda estava por vir, a Cachoeira das Antas,
a apenas um quilômetro à frente. A queda fica no
rio Arinos, um rio amazônico, pois já está
situado ao norte da serra das Azul. O dia foi totalmente off-road,
então decidimos esperar o por do sol ali mesmo, à
beira do rio Arinos. Após
140 quilômetros de trilhas nossa recompensa foi um por
de sol maravilhoso e essa cachoeira que poucos conhecem devido
ao difícil acesso. A noite já havia caído
quando chegamos de volta à cidade.
Dia de partir ao Pantanal, o André Thuronyi e o Helinho
nos guiaram até Poconé de onde partimos tranquilamente
pela Transpantaneira, pois apenas o fato de transitar por esta
"rodovia" já vale a viagem. Parece incrível, mas
a apenas um quilômetro da entrada da Transpantaneira aparece
uma infinidade de animais, a cena chega a ser cômica,
pois todos os carros param a beira dos alagados para ver a infinidade
de pássaros e jacarés. Logo nos primeiros instantes
aparecem os Tuiuiús, um pássaro de 1,5 metro de
envergadura, o corpo todo branco, uma "coleira" vermelha e a
cabeça preta, um símbolo, pois destaca-se entre
todos os outros pássaros. Avistamos, araras canindé
(azul e amarela), ema, tucano, jaçanas, gavião
carijó, garça branca, socó, nos postes
o joão de barro, maritaca, colhereiro, capivara e uma
infinidade de jacarés. Chegamos ao Araras EcoLodge ainda
a tempo para o por do sol. Ficamos observando o por do sol a
beira de um lago cheio de jacarés.
Acordamos as 5h30 da manhã para ver o pantanal acordar
do alto de uma torre de 20 metros. A vida desperta novamente
e tudo recomeça, os pássaros voam serenamente
em direção aos alagados em busca de alimento.
Assim que o sol desponta por inteiro no horizonte, os pássaros
fazem um barulho ensurdecedor como se fosse um aviso que mais
um dia começa. É incrível imaginar que
existe um lugar assim em nosso planeta, parece que não
sofreu a influência do homem.
Após
o almoço nosso fiel companheiro Helinho, nos guiou por
uma trilha com direito a um "corixo"- uma espécie de
canal alagado, onde as Lands puderam finalmente engatar uma
reduzida para transpor a coluna de água que chegava a
quase um metro de profundidade. Seguimos pela trilha até
um igarapé de onde seguimos rio acima em dois pequenos
botes. No rio, piranhas e jacarés que se agitavam assim
que nos aproximávamos, nosso objetivo era chegar a um
local onde habitavam algumas ariranhas. Durante a subida não
vimos nada, remamos por quase uma hora e paramos para um descanso.
Assim que o sol colocou-se atrás das árvores,
resolvemos voltar, para não navegar durante a noite.
Foi na volta que localizamos três ariranhas, o Helinho
emitia um sonido que as atraia, paramos de remar e fizemos o
máximo de silêncio, foi então que uma delas
resolveu dar uma show: ficou às margens do rio exibindo-se
como se não estivéssemos ali. Quando chegamos
de volta ao ponto de onde partimos, uma sucuri nos aguardava.
Nem peciso relatar sobre a histeria das meninas ao ver a cobra,
quase pularam do barco.
André, um apaixonado pela natureza e pelas causas ambientais,
tentando sempre encontrar uma maneira de preservar a natureza
através do turismo sustentável, em sua bagagem
muitas conquistas acumuladas, graças a pessoas como ele
é possível garantir um planeta melhor. Helinho,
esse "cara" realmente vai deixar saudades. Um profundo conhecedor
da região da Chapada, Pantanal e Amazônica. Sempre
com o nome das serras, árvores e animais na ponta da
língua, nenhuma pergunta fica sem resposta. Seu jeito
foi nos cativando dia-a-dia. Na bagagem uma experiência
de vida invejável, já viveu em comunidades alternativas,
já viajou o mundo em busca de aventura, conhece todos
os locais com detalhes, tem dois filhos um de 18 anos e outro
5 anos. Faz movéis rústicos com sobra de madeiras,
anda sempre descalço, sempre em contato com a mãe
terra quem ele conhece muito bem!!! Como ele mesmo diria: Helinho,
Valeu cara!!!
Veja ainda:
As
belezas fotografadas pela BR-163
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