Saimos de São Paulo na quinta-feira, véspera do
feriado de Páscoa, às 14:30 e enfrentamos os congestionamentos
típicos de feriados. Pegamos a Régis Bitencourt,
sentido Curitiba, até Pariquera-Açu e como estávamos
com rádios VHF nos carros, fomos nos divertindo e passando
o tempo da longa viagem, de 280 km sendo 59 km de terra, em
razoável estado de conservação. Em Itapitangui,
próximo a Cananéia, deixamos o asfalto e seguimos
pela estrada que liga Itapitangui a Ariri. Como nosso companheiro
Rubens já havia conversado 15 dias antes com o Sr. Henrique
em um sítio próximo a entrada da trilha, deixamos
lá as carretas com os quadris e seguimos para Ariri,
distante 25 km de terra, só com as pickups e os quadris
que estavam em cima das mesmas.
Pernoitamos em Ariri, em uma pousada, e como a ansiedade nao
nos deixou dormir bem, acordamos em torno de 4:00 da manha e
após um frugal desejum, voltamos os 25 km até
o sítio. As 7:30 já estávamos de quadri
percorrendo os 3 km de estradinha de terra até o primeiro
rio, entrada da trilha.
Como
as informações desta famigerada trilha sempre
apontaram um quadro muito negro, procuramos não perder
tempo e as 8:26 ja chegamos à famosa escolinha (temos
foto com hora para comprovar), onde pudemos encontrar o primeiro
poste remanescente da antiga linha de telégrafo, isto
apesar de o Thiago meu filho, já ter dado uma capotadinha
de leve em uma ponte estreita.
A emoção de todos que conheciam os relatos de
jipeiros, foi muito grande. Mal podíamos acreditar que
estávamos realizando nosso sonho de estar naquele lugar,
na escolinha que tanto já ouvíramos falar.
Então começamos a trilha para valer e o resto
da trilha foi relativamente tranqüilo, em vista do que
esperávamos, apesar de minha cabeça ter "fervido"
um pouco com os desencontros de puxa pra frente, puxa pra trás,
amarra corda aqui ou ali, passe por aqui, não aí,
normal neste tipo de trilha, nada que uma cerveja gelada não
refrescasse e trouxesse a temperatura de volta ao normal. Mas
devo fazer um mea-culpa e pedir desculpas aos companheiros,
pois na fase de preparação, eu mesmo enviei uma
mensagem a todos, pedindo que comparecessem com companheirismo,
boa vontade, disposição e acima de tudo, muito
bom humor. Isto é essencial em situações
difíceis, como neste tipo de trilha pesada.
Chegamos em Guaraqueçaba as 13:30, recorde de seis horas,
mesmo com muitas paradas nas sombras, para lanches e troca de
idéias. No fim de semana anterior, outros 14 quadriciclos
de nosso clube haviam percorrido a trilha em 10 horas. Nós
dividimos o grupo do clube em duas turmas de 14 quadriciclos,
sendo que com primeira turma, estava um jipeiro (Toninho da
Videonorte) que conhecia bem a trilha. No nosso grupo, eu consegui
pela internet o tracklog da trilha e fui de guia seguindo o
GPS. Apesar que o importante é só encontrar o
início da trilha, pois uma vez na mesma, não tem
erro. Não tem outra saída até o fim.
No final da trilha, já no estado do Paraná, no
bairro de Batuva, pegamos uma estrada de ligação
de 30 km até Guaraqueçaba.
Esta nossa turma de "pilotos" de quadriciclos, gosta
muito de acelerar e após cinco horas andando em baixa
velocidade, quando encontramos estrada livre, é dedo
em baixo no acelerador. Isto nos coloca um pouco em situação
de risco de acidentes e precisamos nos educar e ficarmos mais
"civilizados" ou ajuizados. Afinal a maioria é
chefe de família. Nesta trilha, tínhamos dois
pais com os filhos (Aldírio e Diego, Ronaldo e Thiago)
e também um casal (Carlos e a Cláudia, que por
sinal "toca" direitinho). A Cláudia ficava
na minha cola e onde eu escolhia parar passar, ela acompanhava,
acelerando bem, "a milhão", como ela dizia
que eu entrava nos atoleiros.
Neste trajeto de estrada de 30 km, o quadri do Thiago arrebentou
a correia da trasmissão, um defeito comum nos Polaris
e teve de ser rebocado por mim até Guaraqueçaba.
Devíamos ter levado uma de reserva, apesar de que não
é uma troca muito simples de se fazer sem as ferramentas
adequadas.
Como é um trecho muito rápido, o grupo se separou,
tendo quadris a minha frente e vários atrás e
quando cheguei à cidade, fui logo procurar transporte
para o quadri do meu filho. Não tinha nenhum veículo
de aluguel que pudesse levar o ATV até a BR 116, próximo
de Cajati ou Jacupiranga para que eu o pegasse no dia seguinte
com a pickup. Segundo
informações, o asfalto fica distante 80 km de
estrada muito ruim, onde a velocidade média gira em torno
de 30 km/h (seriam três horas de viagem até o asfalto).
E depois teria de pegar a estrada que corta a Serra da Graciosa,
com muitas curvas e que segue em direção sul,
oposta ao desejado, que sai próximo de Paranaguá.
Entao foi sugerido pelos moradores locais que eu alugasse um
barco e o levasse até o porto de Ariri, que era muito
mais fácil e mais barato, já que por terra, seriam
300 km até Cajati ou 600 km até SP. Então
com muito custo, consegui um pequena embarcação
daquelas de pesca, com motor Yammar (tú, tú ,tú
,tú). Conhecem o barulho deles?
Neste meio tempo ficamos sabendo que o ATV do Arnaldo quebrou
o pivô da barra de direção e ele capotou
para frente, quebrando a clavícula em dois lugares. Na
cidade não tem nem raio X. Sorte que nosso companheiro
Marcos Baroni, é paramédico e estava com o grupo
que ficou para trás. Fez o Arnaldo ficar parecido com
uma múmia de tanta atadura e colocou um colete cervical,
que foi de suma importância. Assim o trouxe em sua garupa,
bem devagar até o pronto socorro local, onde o médico
quase nada pôde fazer, além de aplicar um injeção
para tirar a dor e imobilizar o braço esquerdo. Mas devemos
ressaltar a boa vontade e até heroismo do médico
Dr. Marcelo, que mora em Paranaguá e enfrenta todo final
de semana esta viagem de uma hora e meia a bordo de uma "voadeira",
para prestar seus serviços a esta comunidade sem quaisquer
recursos.
Sabem como o Arnaldo saiu de la? Pegou uma voadeira, aqueles
barquinhos rápidos, pelos canais, até Paranaguá,
depois, um taxi até o aeroporto de Curitiba e avião
até SP. O quadri dele voltou junto com o do Thiago de
barco.
Após
termos carregado os quadris no barco, rezando para não
acontecer uma vídeo cassetada, com o barquinho balançando
com o peso dos dois quadris (600 kg os dois), ficamos no restaurante
em frente ao pier assistindo o barco se afastar lentamente.
Realmente uma cena inusitada.
Bom, passamos uma tarde agradabilíssima no pier da cidade,
com direito a whisky 12 anos (Aldírio e Fiola levaram)
e provolone de fabricação própria (Ronaldo)
e cerveja, panqueca de siri, peixes, etc, só olhando
o pôr do sol e jogando conversa fiada fora. Estava tão
bom, que só saímos dali lá pelas 10 da
noite, após um lauto jantar.
Mas a dona do restaurante olhou para as nuvens e disse: "Vai
chover daqui umas três horas". E como ela previu,
começou um chuvisco, que se tornou um chuva intermitente
e a noite toda choveu muito, amanhecendo um aguaceiro.
Quando eu estava colocando o GPS de volta no quadri, o Rubens
perguntou: "O que está fazendo? Não dá
para ir! Os rios devem estar cheios! Temos que alugar um barco
grande e voltar para Ariri." Mas eu estava resolvido a
enfrentar e maioria decidiu voltar por terra. Assim o Rubens,
meio a contra gosto, também resolveu ir conosco, mas
foi por pouco tempo. O quadri dele começou a esquentar
na entrada da trilha, já a 30 km de Guaraqueçaba
e ele resolveu voltar e também alugou um barquinho, que
teve o teto de compensado serrado para acomodar o quadri.
Saímos
do Hotel Guarakessaba as 9:30, sendo que antes telefonei para
minha esposa Ana e disse como estava chovendo e que não
sabia se sairia da trilha no mesmo dia. De qualquer forma estávamos
preparados para dormir no mato, com barracas, comida, saco de
dormir, etc. Entramos na trilha as 10:30 da manhã, mas
logo tivemos um contratempo. Um pneu destalonado e lá
se foram 90 minutos para conseguir colocá-lo no lugar.
E não parava de chover e logo topamos com quatro jipes
de Cotia, com os quais haviamos encontrado no dia anterior ainda
na estrada, vindos de Guaraqueçaba, ou seja em sentido
contrário ao nosso. Pretendiam fazer até Ariri.
Mas com a chuva da noite eles haviam desistido e estavam voltando
e tivemos de esperar que nos dessem passagem. Eles também
nos informaram que lhes foi dito que o último rio havia
subido seis metros (como jipeiro é exagerado!!! Ou mentiroso?
Brincadeira, pessoal). Mas eu e todos estávamos dispostos
a arriscar e continuamos assim mesmo.
Como foi boa esta trilha com chuva. Como tinha água e
barro.
Passamos
os quadris nos rios, flutuando, com seis pessoas segurando,
para não entrar água no filtro de ar e no escapamento.
Foi uma maravilha, graças a colaboração
de todos.
No final, já no sítio onde deixamos os carros,
o Aldírio abriu mais uma garrafa de "visky",
que nos deixou num fogo só debaixo de chuva carregando
os quadris nas carretas e pickups, maravilhados e eufóricos
de termos conseguido terminar, com todas as dificuldades encontradas.
Havíamos gasto nove horas para voltar (o que foi bem
rápido em vista das dificuldades e de duas horas perdidas
com o pneu destalonado e o quadri do Rubens esquentando) e já
estava escuro quando acabamos de carregar os quadris.
A maioria seguiu viagem de volta para São Paulo, mas
Toninho Fiola, Thiago, Albery, Marcos Baroni e eu, tivemos de
voltar para Ariri, distante 25 km para ver se os quadris haviam
chegado de barco (eu estava rezando para que sim). Logo encontramos
o porto e já vi um barquinho com os dois quadris. Foi
um grande alívio e enquanto procuravam pelo barqueiro
pude fazer muitas amizades no boteco em frente (um gambá
cheira o outro, não é).
Mas e o Rubens? Onde estaria? Afinal já eram quase 8:00
da noite. Depois que descarregamos o barco, vimos uma luzinha
ao longe e imaginamos que fosse ele. E era. Depois de quatro
horas de viagem a 10 km/h, com chuva e a noite que chegou, lá
estava o Rubens. Ou seja, ele saiu do espeto e caiu na brasa.
Achou que a trilha seria impossível de ser feita com
aquele tempo, mas a ida de barquinho também foi muito
difícil, ainda mais depois que escureceu. São
tantos canais, segundo ele, que nem com o GPS, que ele manteve
ligado, se consegue fazer uma navegação fácil.
Mas foi tudo bem, carregamos tudo e seguimos viagem.
Passamos novamente no sítio, pegamos as carretas e o
carro do Toninho (a esta altura eu já estava curado do
porre) e fomos dormir em Peruíbe, onde se encontravam
minha esposa e filhinha, preocupadas com a falta de notícias.
Não sem antes um pneu furado da minha carreta, ainda
na estrada de terra, tendo que descarregar o quadri e meu filho
foi pilotando até proxima cidade, Itapitangui. Lá,
acordamos um borracheiro, em pleno sábado de Aleluia
que deu um jeito. Estas aventuras nunca são completas
sem estes contratempos.
Chegamos em Peruíbe 3:30 da manhã de sábado.
(Fiola, Rubens, Marcos, Ronaldo e Thiago, com tres carros e
5 quadris)
Por
fim uma sugestão a todos que algum dia forem fazer esta
trilha e mesmo em outros lugares pobres. Nós levamos
várias cestas básicas, balas, doces, chocolates
e bombons (afinal era Páscoa) para distribuir nas "casas"
ao longo do percurso. Em cada casa que parávamos, era
uma festa, pois tem muita criança por lá (será
falta de TV?). E a nossa turma da semana anterior levou brinquedos.
Isto é muito importante para promover a integração
da comunidade local com os trilheiros e seremos sempre bem vindos.
E também é uma satisfação ver a
alegria das crianças. Além disto, devemos é
claro, respeitar as propriedades por onde passamos.
Temos um belo filme da aventura. Fotos não muito boas
devido à chuva. Mas as recordações serão
guardadas em nossas mentes para sempre. Ou pelo menos até
a próxima empreitada, que esperamos seja em breve.
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Participantes
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Ronaldo
Andrade - Yamaha Grizzly 660 com pneus Big Foot
(tratorzão)
Thiago Andrade - Polaris Sportsman 500 Remington
(também com pneuzão - piloto malucão
Billy Júnior)
Aldiro Cruz - Honda Rincon 650 (0 km - parece um
carro)
Diego Cruz - Honda Fourtrax 325 (já está
ficando maluco como os mais velhos - está
querendo entrar para turma dos Billy Bronx)
Antônio Fiola - Honda Fourtrax 325 (presidente
do ATV Clube)
Chicão (Tuareg Motos) - Honda 325 (com seu
fiel escudeiro Neto)
Valdecy - Honda 325 (incansável trabalhador,
ajudando a todos)
Edson Teubner - Yamaha Grizzly 600 (ninguém
aguentava mais o barulho de seu escapamento)
Carlos Guarany - Kawasaki Prairie 650 (zero bala,
estreando)
Cláudia Guarany - Polaris Sportsman 500 H.O.
(ela pilota bem)
Albery Spinola - Kawasaki Prarie 400
Arnaldo Preisegalavicius - Kawasaki Prarie 400
Rubens Límoli - Artic Cat 500 (com mais equipamentos
que caminhões do Paris-Dakar, inclusive com
telefone via satélite)
Marcos Baroni - Kawasaki 300 (paramédico
equipado até os dentes, inclusive com colete
cervical). |
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