Na Líbia quase tudo é verde. O verde é
a cor oficial do país, e até o chefe supremo Muammar
Al Kaddafi publicou um livro que intitulou de verde. Verdes
são também os sentimentos dos líbios que
pacientemente esperam o regresso do país à normalidade...
Verde eram também os números da amolgada chapa
de matrícula nº 6342 que tive que comprar na alfândega
líbia por forma a legalizar e permitir a entrada do meu
4X4 Mitsubishi L200, depois de colocada com arames por cima
da portuguesa, que ali, coitada, não servia de nada.
Uma vez chegados, as formalidades de fronteira estavam a decorrer
a tão bom ritmo que nem quis acreditar que estava prestes
a deixar para trás Ras Ajdir, a porta da Líbia
mais utilizada para quem entra por NW. O meu imaginário
desmoronou! Estava num país como tantos outros que tenho
visitado por essa África fascinante... Não vi
caras cerradas por detrás de armamento bélico,
nem tão pouco campos de treino para terroristas, como
continuam a afirmar os paladinos do "eixo-do-bem".
Já a tarde ia a meio quando me debrucei sobre o sul deste
enorme país de 1.759.540 Km2, aproximadamente, vinte
vezes maior que Portugal e com uma população aproximadamente
cinco vezes inferior à deste.
Fim de tarde. Para olho treinado e atento a estas coisas de
desertos, lia-se no ar que os ventos do sul tinham varrido a
Hamada al Hamrah e dado novas formas ao Erg Awbari, consequência
das baixas pressões mediterrâneas que formam nesta
região espessas nuvens de areia.
Os 8000 quilômetros a transpor eram uma incógnita,
embora tivessemos detalhadamente preparado todo o trajecto em
"laboratório", ou seja, no estirador, tomando
como cartas referenciais para levantamento das coordenadas as
TPC americanas (+-400 pontos para o GPS). O objetivo imediato
era dormir às portas de Ghadames, "a pérola
do deserto" (assim a designavam os ex-colonizadores italianos)
e fazer-lhe uma visita na manhã seguinte.
Patrimônio da Humanidade
Ghadames é, sem dúvida, a cidade antiga mais bonita
de toda a Líbia, e não foi em vão que a
declararam patrimônio da humanidade. Aqui os autóctones
entendem-se entre si através de dialeto berbere, mas
também encontramos quem se exprime em italiano. A arquitetura
da cidade é verdadeiramente labiríntica e original.
Toda ela foi feita com o recurso ao adobe fino, requintadamente
pintado, e à madeira de palmeira. As suas ruas escuras
e frescas são cobertas pelos soalhos dos primeiros andares
das casas e estes, por sua vez, são seguros por troncos
de palmeiras que atravessam constantemente as ruas de parede
a parede e vão desembocar em belas áreas descobertas
e nichadas, onde jovens e anciãos se deleitam nas horas
tórridas, ouvindo o cantar das águas divinas que
atravessam todo aquele emaranhado habitacional. Algumas "casas-museu"
foram reconstruídas, pelo que visitando-as podemos respirar
e sentir a filosofia e o "bordado" desta civilização
salpicada de culturas: Romana, Vândala, Bizantina e, recentemente,
Italiana.

Com a autonomia de combustível ao máximo (200
litros), deixamos o oásis de Ghadames e lançamo-nos
para a ligação à cidade de Ghat, a grande
porta do Akakus. Para percorrer este percurso, os nómadas,
em seus camelos, precisam de aproximadamente 15 dias e de dois
poços de água. No entanto, nós, graças
à tecnologia, só necessitamos de três, mas
são três verdadeiros dias de nada, em que os únicos
vestígios de civilização são alguns
bicos de fogo longínquos, que, ao entardecer, incendeiam
o céu, símbolos da riqueza petrolífera
existente no subsolo destas latitudes.
Perfeitamente
entregues a nós próprios e à divina proteção
do Grande Allah, tendo a linha de fronteira argelina sempre
à nossa direita, a escassos quilômetros, o que
nos faz redobrar os cuidados com a navegação ("Não
vá o Diabo tecê-las" e entrarmos em território
considerado de alto-risco!!!) deixamos a Tripolitânia
e "enterramo-nos" nas grandes extensões arenosas
que os líbios denominaram Sahra (não confundir
com Sara), a ponta mais ocidental do grande Erg (vasta área
de grandes dunas).
Viagem no século 19
Ao enfrentar as dificuldades inerentes a este terreno arenoso,
não pude deixar de pensar em Barth, aquele que foi considerado
o modelo dos exploradores que revelou à Europa os esplendores
da África Central e do Sara. Durante aqueles dias, o
meu imaginário transportou-me ao passado e pude imaginar
Heinrich Barth surgindo no horizonte daquele imenso mar de areia,
aproximando-se lentamente por entre enormes agulhas rochosas
que se aguçam com o passar dos séculos,
numa convulsão de lava que formou montanhas que hoje
não passam de colinas. Rodeado da sua altiva escolta
Tuaregue, nesses anos idos de 1850, Barth, estava na vanguarda
do tempo que lhe permitiu ser o primeiro europeu a contemplar
essa tela gigante, petrificada, que é o Akakus. Aqui
os artistas da pré-história gravaram e pintaram
centenas de deslumbrantes motivos que relatam a vida das populações
sarianas no tempo em que o clima era mais temperado, e onde
a vida dos caçadores e dos pastores surge com o mais
fino detalhe, e desfilando aos nossos olhos os animais que viviam
outrora nesta região verdejante e que chegaram quase
intactos aos nossos dias.
Aqui me encontro, 140 anos depois, nesta faixa seca, situado
entre o Equador e 25 graus de latitude norte, neste mar de areia
onde o calor é implacável, na Líbia, no
Akakus, que mais não é do que o esvanecer do Tassili
n'Ajjer para ocidente, nos contrafortes do majestoso Erg Murzuk.
As noites, o céu, os acampamentos, tudo aqui é
inolvidável e grande, tão grande que o simples
fato de acampar em grupo pode significar estar só e é
nessa solitude nostálgica que me dou a pensar se cada
região, cada oued (rio) , cada montanha, cada pista,
cada paisagem não passa do pano de fundo, do cenário
tridimensional de um palco vivo onde grandes dramas e tragédias
foram eloquentemente vividos por personagens ávidas de
conhecimentos e glória, imbuídos nessa força
estranha que os fez ir sempre mais além, para que hoje
possamos cruzar os 8.560.000 quilômetros quadrados de
imensidão Sahariana com elementos topográficos
milimétricos.
E importa não esquecer que há somente 150 anos,
aproximadamente, a aventura da exploração do Sahara
começou a ser relatada com alguma precisão científica.
Até então os europeus só tinham elementos
sobre as costas deste continente secreto e tão próximo
de nós.
Os deslumbrantes oásis de Ubari
Depois
de termos "bebido" a paz no Akakus, neste jardim de
areia que acaricia com doçura as falésias escavadas
por milhares de anos de erosão e onde "florescem",
como sentinelas deste paraíso perdido, curiosas esculturas
ocres moldadas pela corrasão, infletimos para NE e rolamos
aproximadamente 400 km para o interior do país, ansiosos
por nos aproximar-mos do ramla dos dawwada, mais conhecido pelo
corredor dos oásis e lagos de Mandara.
Tudo quanto se possa dizer sobre este trajeto é pouco.
O caminho é duro, algumas das dunas a superar são
gigantescas, mas o espectáculo impressionante que nos
está reservado não tem rival no resto do mundo
que eu conheço. Depois de ultrapassadas as titânicas
dunas, entra-se nos Gassis, corredores de areia entre dunas
douradas, no coração do erg Ubari, que nos conduzirão
a uma série de espetaculares lagos coroados de palmeiras,
que não se acredita possam existir até que se
vejam. Vão desfilando diante dos nossos incrédulos
olhos: GabrAun, Fezu, Mandara, etc.
A
água destes paradisíacos lagos é de uma
salinidade enorme, intragável, e a paisagem que eles
nos proporcionam é exatamente aquela que podemos obter
numa noite de sonhos onde os oásis imaginários
do deserto pontificam. Por incrível que pareça,
estes lagos isolados de tudo foram habitados, tendo os seus
últimos residentes só abandonado o lugar em 1980.
Se escavarmos a uns metros do lago podemos obter uma água
satisfatória para consumo e essa é a razão
pela qual, a partir do século XII, os oásis dos
dawwada que significa em árabe "comedor de minhocas",
se tornaram paragens obrigatórias de cada vez mais caravanas.
Entretanto, os acontecimentos da década de 60 vieram
alterar toda uma filosofia de vida de muitos séculos.
As autoridades fazem incessantes apelos à sedentarização
das populações e o eixo a Este, que ligava a Tripolitânia
a Gao, com passagem pelo Fezzan, e que constituía rota
obrigatória do comércio entre a África
do Norte e o Sudão, não é mais do que uma
mítica faceta do passado Sariano.
Uma revolução inacabada
Em finais dos anos 60, um jovem oficial líbio, Muammar
al - Khadafi, que estudava em Londres, regressa à pátria
e dá continuidade, no seio do exército, ao trabalho
político e conspirativo anteriormente iniciado em Inglaterra.
A 1 de Setembro de 1969, começou em Shebha uma insurreição
que rapidamente derrubou a monarquia e o rei Ídris, transformando
a Líbia pelo aproveitamento dos enormes recursos do petróleo.
O resultado foi que, em cinco anos, a Líbia deixou de
ser o país mais pobre do Norte de África para
alcançar o rendimento per capita mais elevado do continente.
Foram abertos mais de 1.500 poços artesianos, enquanto
cerca de dois milhões de hectares de deserto começaram
a ser irrigados para a sua transformação em áreas
férteis. Cada família passou a ter direito a 10
hectares de terra, em média, recebendo também
trator, casa, alfaias agrícolas e de irrigação.
Nas cidades foi criado um sistema de previdência social,
assistência médica gratuita e abonos para famílias
numerosas.
É evidente que um programa ambicioso como este, não
poderia deixar de aglutinar o nomadismo à chamada civilização
de consumo... Mas como não há bela sem senão,
este período áureo de recuperação
econômica do país vai sofrer diversos reveses,
que vão desde a má relação do seu
líder com os países vizinhos, que não vêem
com bons olhos a política interna programada por Khadafi.
Este mal estar, nos dias de hoje, faz parte do passado, embora
se sinta, que as promessas de repartição da riqueza
pela população estão a ser esquecidas...
Após
termos concluído o circuito dos lagos, verdadeira paisagem
lunar, dirigimo-nos para a enigmática região do
Império Garamante, Garama, vizinha da atual Germa que,
durante mil anos, foi o maior império que dominou esta
vasta extensão de terreno, só comparável
ao império Egípcio. Esta misteriosa sociedade
continua ainda hoje a ser objeto de estudos, já que pouco
se sabe sobre a sua origem e menos ainda sobre a sua extinção.
O que resta desta capital imperial não passa de uma cidade
fantasmagórica, em total ruína, mas que deixa
antever, pelo enorme sistema de canais subterrâneos, a
sua grandiosidade de outrora.
De regresso ao norte, esperam-nos os mais belos e espetaculares
restos arqueológicos de toda a costa africana: Leptis
Magna. Ainda temos tempo para percorrer a segunda maior reta
do mundo - a primeira está na Austrália - e ver
desfilar medinas muralhadas, brancas mesquitas, traiçoeiras
línguas de areia que em alguns locais atravessam completamente
a estrada, muitas viaturas amolgadas e abandonadas nos locais
dos seus capotanços... Continuamos a rolar para percorrer
os 1000 quilômetros que nos separam da costa mediterrânea.
O calor, nesta época do ano, Abril, embora modesto, já
se faz sentir dentro da viatura onde o termômetro atinge
facilmente os 40º centígrados, o que torna as grandes
retas monótonas, não fosse a atenção
que é necessário pôr na navegação,
dado que todas as informações são escritas
em árabe clássico.
Dormimos em Zletane, pequena cidade ainda no interior da Líbia,
mas já muito próximos do mar, no hotel mais decente
que existe num raio de 500 quilômetros. O pessoal do hotel
é constituido, na sua maioria, por emigrantes marroquinos
e tunisinos. De uma maneira geral, é com mão de
obra estrangeira, emigrada ou contratada temporariamente, que
o país funciona.
Vestígios vivos de um império
Ávidos por calcorrear as calçadas romanas praticamente
intactas de Leptis Magna, depois de um reconfortante pequeno
almoço, dirigimo-nos para a Roma Africana do Imperador
Septimus Severus. Esta feitoria de Fenícios no Norte
de África, que hoje se chama Lebda, guarda no seu seio
este precioso tesouro que os Romanos tiveram o engenho de construir
tirando partido da sua localização, que mais parece
uma varanda para o Mediterrâneo. É, como quem diz,
um estratégico entreposto para escoamento das mercadorias
mais esquisitas e valiosas: especiarias, ouro, escravos, marfim,
etc., procedentes dos Garamantes. Aqui,
em Leptis Magna, é de olhos abertos que se sonha e, por
mais ignorantes que sejamos, não deixamos de sentir o
peso daquelas peças com aproximadamente dois milênios
que teimam em nos fazer sentir que são de um tempo em
que os homens tinham tempo... A basílica dos Severos,
o teatro, os luxuosos banhos de Adriano, o mercado, até
as sanitas dos gladiadores estão lá.
Esta paragem, esta visita, que sem dúvida nenhuma merece
o desvio, funcionou, além do mais, como antecâmara
de um final de viagem na capital, Tripoli ou Tarabulos como
lhe chamam os Árabes.
De repente, somos surpreendidos por uma cidade grande, incaracterística
e lúgubre, para aos poucos ir descobrindo que é
nas suas entranhas que estão as suas raízes. Ao
longo da caminhada vão-se dissipando as dúvidas
com o surgimento dos vários vestígios históricos:
o
Arco de Marco Aurélio, que nos recorda que toda esta
costa africana está salpicada de um passado cartaginês
e romano, a velha fortaleza espanhola, legado da mais célebre
das ordens religiosas e militares, a Ordem de Malta, os embutidos
deixados pelo sultão turco Solimão, o magnífico,
que, em 1551, incorporou a região no império Otomano,
a medina árabe com suas acanhadas ruelas, o fervilhar
de comerciantes que, calmamente, esperam pelo comprador ávido
de sensações. Chalés e palacetes italianos
denunciam um recente passado colonial.
Aqui gastamos os últimos dinares, e eram bastantes! Antes
de se entrar na Líbia são inúmeros os assédios
para cambiar dinheiro (US dolares) no mercado negro, e nós
não resistimos à tentação. Vai daí,
tivemos dificuldade em lidar com tantas notas. É que
chegam a pagar seis vezes mais que no câmbio oficial!
Por outro lado o gasóleo, que sempre é a grande
despesa nestas viagens, aqui não representou praticamente
nada. Fica mais caro uma bebida de cápsula no bar do
hotel que encher todo o depósito de combustível.
Incrível!
Depois de termos comprado um sem número de bugigangas
nos bazares da medina, dirigimo-nos para a fronteira que estava
a abarrotar. No entanto, as autoridades líbias, nos dias
de hoje, privilegiam os turistas em 4X4. Preenchimento de formulários
de saída, entrega da amolgada chapa de matrícula,
contra reembolso da qual nos devolvem 50 dinares, e lá
saimos com a promessa íntima de voltar para visitarmos,
na próxima, o lago do vulcão Waw an Namus, o deserto
negro deste 'reino das areias' que liga o Atlântico ao
mar Vermelho atravéé de 5000 quilômetros
de comprimento.
|
|